quinta-feira, 31 de março de 2011

E agora, OSB ?

John Neschling
Publicado em por semibreves

 

Porque é disso que estamos falando: de um desarme, da destruição consciente e voluntária de uma orquestra que existe há 70 anos, que sobreviveu a tempos de vacas magras e que brilhou em tempos de glória, mas que jamais foi apunhalada da forma como a estão apunhalando. A OSB como a conhecemos todos os cariocas e brasileiros há décadas, acabou, foi desmantelada, não existe mais. Nunca imaginei que o “bon mot” que cunhei em outro post ao dizer que em vez de trocar de regente a administração resolveu trocar de orquestra pudesse corresponder exatamente à realidade. Seria cômico se não fosse trágico, pois quem perpetra tal desgoverno é justamente o filho de um dos músicos que criou a aura dessa orquestra. A imprensa, no afã de tentar entender ou explicar o ineditismo da situação, procura paralelos seja em orquestras brasileiras (todas elas vítimas de nossa extrema precariedade ou grupos criados a partir do zero nos últimos anos), seja em grandes orquestras mundiais. Essas, devido às suas estruturas centenárias e às suas qualidades intrínsecas indiscutíveis não servem para comparação com qualquer orquestra brasileira, da OSESP  à Lira São Joanense. No Brasil, a Orquestra Filarmônica de Minas Gerais está engatinhando, a OSESP acabou de entrar na sua adolescência. As Filarmônicas de Berlim, Nova Iorque e Israel certamente não necessitam de qualquer exame de reavaliação, que, estrutrado de forma diferente e organizado de forma mais respeitosa, poderia, sim, ajudar a OSB a dar um salto de qualidade ao qual, em sã consciência, nenhum músico se oporia.

A Orquestra Sinfônica Brasileira é uma instituição privada, cujos empregados são regidos pelo regime da CLT. Esse regime prevê a possibilidade de demissão, seja por justa causa, seja indenizando-se os demitidos com o pagamento de todos os direitos previstos na lei. O programa de demissão voluntária, embora me pareça perverso no âmbito humano da OSB, é uma alternativa prevista em lei e se não foi levado em consideração pelos músicos da orquestra, é porque toda a situação lhes parecia injusta e mal encaminhada. Aos músicos demitidos cabe a partir de agora a briga na justiça,  que decidirá se as demissões são justas ou não e a administração da orquestra terá que respeitar a sentença que o juiz proferir. As consequências poderão ou não pesar muito no orçamento da orquestra.

O que não está no âmbito das decisões judiciais é o prejuízo dificilmente mensurável que tal crise trará para o futuro da orquestra. Um dos principais patrocinadores da OSB é o BNDES. A letra S no nome do banco significa a preocupação social  da empresa. Terá o banco interesse em continuar a patrocinar uma orquestra que vilipendia de tal forma seus empregados? Que demite de forma tão violenta metade de seu corpo artístico? Qual a empresa, privada ou estatal, que deseja unir seu nome a uma instituição que passa uma imagem de truculência, violência e maus tratos? Será que esse comportamento discutível, para sermos modestos, foi debatido com antecedência com a Prefeitura, um dos grandes mantenedores da orquestra? Essas questões cruciais para a sobrevivência da instituição terão de ter passado pela cabeça de seus administradores, todos versados em economia e nas regras do mercado, sob o risco de serem julgados como irresponsáveis e incompetentes. Uma orquestra não é um banco de investimentos, não é uma fábrica nem uma empresa comercial. Certamente não será necessário que se explique aqui outra vez as peculiaridades e as sensibilidades especiais de uma orquestra sinfônica. O risco que se incorreu ao deixar que essa situação de extrema tensão transbordasse e viesse a público com a violência com que veio, com sua exposição internacional gravíssima e inédita, coloca todos os responsáveis pela instituição, aí incluido o seu diretor musical, na berlinda e os obriga a explicações  claras e transparentes. A culpa que lhes pesará nos ombros, caso sobrevenha a destruição de um dos ícones de nossa cultura não é coisa fácil de expiar.
Cabe, no entanto, uma reflexão sobre o futuro da orquestra, caso se consiga, mal ou bem, ultrapassar o trauma gravíssimo que se inflingiu ao seu corpo musical. Do ponto de vista meramente artístico é de se duvidar da possibilidade do maestro continuar a liderar, por ora, um grupo composto de músicos em sua maioria amedrontados, humilhados, indignados e na defensiva. Que muito provavelmente, com ou sem razão, se sentirão culpados pela situação precária na qual se encontrarão seus colegas demitidos e que serão condenados, por parte destes, a um isolamento destrutivo para sua auto estima. Um maestro que se verá na contingência de apresentar resultados qualitativos a curto prazo a um público desconfiado. Um maestro que terá de lutar pela sua reabilitação no conceito de toda uma classe profissional,  que se opôs frontalmente à sua atitude, não só no Brasil como no exterior. Inúmeros músicos, sindicatos e orquestras do exterior se manifestaram, de forma clara e incisiva, contra o processo instaurado na orquestra carioca. Sua carreira está em risco. Seu nome está em jogo. Não será fácil trabalhar nessas circunstâncias. Terá à sua frente uma orquestra em pedaços e incompleta. Será necessário completar, e com urgência, os quadros do conjunto. Quais os músicos brasileiros de qualidade que se apresentarão aos concursos de admissão após os acontecimentos do passado recente? Qual a garantia que receberão de respeito e segurança no trabalho? Onde encontrar os músicos estrangeiros com a qualidade necessária para preencher as dezenas de vagas abertas pelas demissões? Não se admite que se tragam ao Brasil músicos de qualidade mediana após o escândalo do afastamento de tantos músicos competentes. Estes são  alguns dos problemas que terão de ser enfrentados, e com urgência, pelo diretor artístico da OSB.

Há, no entanto, e não menos grave, o problema econômico a ser enfrentado pela Fundação OSB. Foi dito reiteradas vezes tanto pelo presidente do Conselho quanto pelo diretor artístico que os salários a serem oferecidos àqueles que passarem pelas audições, e naturalmente aos novos músicos da orquestra, serão comparáveis ou mesmo superiores àqueles que são pagos atualmente pela OSESP.  Não estou mais informado extamente dos salários da orquestra paulista mas imagino que estes, devidamente reajustados, devem estar beirando os 10.000 reais para um músico de fila. Um contrato de 10.000 reais pela CLT custa ao empregador por volta de 17.000 reais por mês. Mas não esqueçamos que os “spallas” (e são dois) da orquestra ganham por volta de 18.000 (o que para o empregador não sai por menos de 30.000 mensais) e que os solistas dos diversos naipes recebem por volta de 12 a 13.000 reais mensais (não menos de 20.000 reais mensais para o empregador). Qual a garantia que a OSB tem de que terá à disposição um orçamento anual que cubra esses enormes custos de pessoal? Nunca houve transparência nas informações do “status” financeiro da Fundação. Nunca foi publicado um relatório de atividades econômicas da OSB. Nunca se soube ao certo quanto dinheiro foi arrecadado pelo seu departamento de marketing, nem como esse dinheiro foi utilizado ou em que foi aplicado. Todas as informações que circularam e circulam até hoje sobre o orçamento, a verba arrecadada e a administração financeira da Fundação são obscuras e aproximadas. Quem garante que a OSB terá os meios suficientes para a sobrevivência a longo ou ao menos a médio prazo das suas atividades?  De onde virão esses recursos? Como se arriscar a trazer 40 músicos novos nessa realidade nebulosa? É urgentemente necessário que o Conselho da Fundação venha a público com essas informações de forma clara e transparente para que o processo traumático a que obrigam a orquestra a passar tenha um mínimo de credibilidade. Como será a estrutura administrativa da orquestra num futuro como o que está sendo anunciado? Continuaremos a ter uma OSB com sua estrutura administrativa antiquada e desconhecida do público? Será que essa grande renovação que se proclama ficará restrita aos músicos? Isso faria com que as  injustiças cometidas contra os profissionais da orquestra fossem ainda mais graves.

Enfim, perguntas e mais perguntas, dúvidas em cima de dúvidas. Há, finalmente, uma outra perspectiva de análise para essa questão: e se tudo for  pelo melhor? Nossa realidade econômica, como já comentei diversas vezes, é favorável a investimentos a longo prazo. Não houve, há décadas, momento mais propício do que esse para a criação de outra OSESP, dessa vez no Rio de Janeiro. E se a OSB se transformasse, num passe de mágica administrativa e artística, numa segunda grande orquestra internacional no Brasil?  Isso  viria confirmar o momento de euforia que vivemos no País e nos colocaria de vez no mapa dos países sinfônicamente importantes. No quadro atual, é difícil ter esperança. Se essa hipótese se confirmar, viveremos o luto do processo traumático, continuaremos a pugnar pelo respeito e pela dignidade de nossos músicos, mas algum resultado positivo terá advindo desse tsunami que assolou nossa orquestra.
Caso contrário, o crime terá sido capital, e não terá perdão.

John Neschling
Publicado em por semibreves

And now, OSB?

It seems that the impasse in which the musicians and the artistic direction and the administration of the OSB found themselves has reached its climax: more than forty musicians from the ensemble are being dismissed, a plea of just cause being entered be the administration, for not presenting themselves for the control auditions called for by their artistic director. There is no doubt that the way with which the orchestral directors lead the whole process was truculent, arbitrary and socially unjust. There is no way of camouflaging the bad faith in which the auditions were announced during the musicians' holidays. There is no way of hiding the intention to dismiss, when a warning was issued that non-appearance at the tests would be considered as grave indiscipline, and the auditions and methods of control were not discussed with the musicians or their spokesmen. There is no way of humanely justifying the summary dismissal of musicians who have been members of the orchestra for 20 or 30 years and who are obviously no longer at the height of their powers. In other words, the process was invested with injustice, absolutism and lack of shrewdness from the beginning right up to its lamentable outcome. I have already written, in various posts on this blog, expressing my opinion of the away in which this whole mess was set in motion. I also refuted energetically, although it is insistently made, at the example of Roberto Minczuk in the paper "O Globo", the comparison between the process of quality control which the OSESP was put through to restructure it when I arrived and the auditions organised by the OSB. I cannot accept that the process through which the OSESP passed in 1997 is used to excuse or justify the trauma and dismantling which is occurring now in the OSB.

Because this is what we are talking about: a  dismantling, the conscious and voluntary destruction of an orchestra which has existed for 70 years, which has survived lean periods and which has shone in times of glory, but which has never been stabbed in the way it is now being stabbed. The OSB as we Cariocas and Brazilians have known it for decades has finished, has been dismantled, no longer exists. I never imagined that the "bon mot" I coined in another post saying that instead of changing the conductor, the administration decided to change the orchestra could ever correspond exactly to the reality. It would be comic if it were not tragic, because the person who is perpetrating such "misgoverning" is none other than the son of one of the musicians who created the aura of this orchestra. The press, in its eagerness to try and understand of explain this unheard-of situation, looks for parallels, whether in Brazilian orchestras (all victims of our extreme precariousness or groups created from zero in the last years) or in great world orchestras. These latter, due to their century-old structures and intrinsic indisputable qualities, cannot be compared with any Brazilian orchestra, from the OSESP to the Lira São Joanese. In Brazil, the Philharmonic Orchestra of Minas Gerais is feeling its way, the OSESP has just entered adolescence. The Philharmonics of Berlin, New York and Israel certainly don't need any kind of quality control exam, which, structured in a different way and organised in a more respectful manner, could help the OSB to a leap in standard which no musician in his right mind would oppose.

The OSB is a private institution, whose employees are governed by the rules of the CLT (Consolidation of Labour Laws). These rules presuppose the possibility of dismissal, when there is just cause, and when the dismissed are compensated with the payment of all legally prescribed rights. The programme of voluntary dismissal, although seeming to me perverse in the humane world of the OSB, is a legally prescribed alternative and if it was not considered by the musicians of the orchestra, that is because the whole situation seemed to them unjust and badly executed. The dismissed musicians can now fight in court, which will decide if the dismissals are fair or not and the administration of the orchestra will have to respect the sentence which the judge passes. The consequences may weigh heavily or not on the orchestra's budget.

What is not within the scope of the legal decisions is the immeasurable harm which such a crisis will bring to the future of the orchestra.  One of the principal patrons of the OSB is the BNDES (National Bank of Economic and Social Development). The letter S in the bank's name underlines the social concerns of the company. Will the bank be interested in continuing to support an orchestra which vilifies its employees in such a manner? Which dismisses in such a violent way half of its artistic body? Which company, private or state, would want to link its name with an institution which gives the impression of truculence, violence and ill-treatment? Could it be that this debatable behaviour, to put it modestly, was discussed in advance with the city government, one of the main financial supporters of the orchestra? These questions, crucial for the survival of the institution, will have to pass throughout the heads of its administrators, all experts in economics and the rules of the market, at the risk of being judged as irresponsible and incompetent. An orchestra is not an investment bank, it is not a factory or a commercial company. It is certainly not necessary to explain again here the peculiarities and special sensitivities of a symphony orchestra. The risk that was run in letting this extremely tense situation overflow and hit the public with the violence with which it came, with its unprecedented and extremely serious international exposure, puts all those responsible for the institution, including its musical director, in the firing-line and obliges them to come up with clear and transparent explanations. The blame which will weigh on their shoulders, should it come to the destruction of one of our cultural icons is not easy to atone for. They should, however, to reflect on the future of the orchestra, if it succeeds somehow in coming through the highly serious trauma which has ben inflicted on its musical body. From the merely artistic point of view, it is doubtful if the maestro will be able to lead for the time being a group made up of musicians , the majority of whom are intimidated, humiliated, incensed and on the defensive. Who most probably, rightly or wrongly, will feel to blame for the precarious situation in which their dismissed colleagues find themselves, and who will be condemned by them to isolation destructive to their self-esteem. A maestro who will see himself required to present short-term qualitative results to a mistrustful public. A maestro who will have to fight for his rehabilitation in the minds of an entire professional class, which opposes his attitude head-on, not only in Brazil but abroad as well. Countless musicians, unions and orchestras from abroad have expressed themselves in a clear and incisive manner against the process established in the Carioca orchestra. His career is at risk. His name is at stake. It will not be easy to work under such circumstances. He will have in front of him an orchestra in pieces and incomplete. It will be urgently necessary to fill the ranks of the ensemble. Which good Brazilian musicians will present themselves at the auditions after what has happened recently? What guarantee do they have of respect and security at work? Where can foreign musicians of the necessary quality be found to fill the dozens of vacancies left by the dismissals? It is not acceptable to bring musicians of mediocre quality after the scandal of the sacking of so many competent musicians. These are some of the problems which will have to be confronted, and with urgency, by the artistic director of the OSB.

There is however the no less serious economic problem to be confronted by the Foundation of the OSB. It has been said many times by the president of the council as well as by the artistic director that the salaries to be offered to those who take the auditions, and of course to the new members of the orchestra, will be comparable to or even higher than those paid at the moment by the OSESP. I am no longer exactly informed of the salaries of the São Paulo orchestra, but I imagine that these, duly adjusted, must be bordering on the 10.000 Reals for a rank and file musician. A contract of 10.000 Reals under the CLT costs the employer around 17.000 Reals a month. But let us not forget that the leaders (and there are two of them) of the orchestra earn around 18.000 (which will not be chess than 30.000 a month for the employer) and that the soloists of the various groups receive between 12 and 13.000 Reals a month (not less than 20.000 Reals a month for the employer). What guarantee does the OSB have that it will have an annual budget at its disposition which can cover these enormous personnel costs? There has never been transparency in the information concerning the financial "status" of the Foundation. A report of the economic activities of the OSB as never been published. It has never been known for certain how much money was collected by its marketing department, nor how this money was used or on what it was spent. All the information which circulated and circulates to this day about the budget, the acquired resources and the financial administration of the Foundation is obscure and approximate. Who guarantees that the OSB will have the sufficient means for the long-term or at least mid-term survival of its activities? Where will these resources come from? How can they risk bringing 40 new musicians into this nebulous reality? It is urgently necessary that the Council of the Foundation makes this information public in a clear and transparent manner so that the traumatic process that they have obliged the orchestra to pass through can have a minimum of credibility. What will the administrative structure of the orchestra be in a future like the one being proposed? Will we continue to have an OSB with its out-dated administrative structure hidden from the public? Will this grand renewal that is being announced be restricted to the musicians? This would lead to the injustices committed against the professionals of the orchestra being even more serious.

Anyway, questions and more questions, doubts and even more doubts. Finally, there is another perspective of analysis for this question: what if everything works out for the best? Our economic reality, as I have commented several times, is favourable to long-term investments. There has not been, for decades, a more propitious moment than this for the creation of another OSESP, this time in Rio de janeiro. And what if the OSB, in an administrative and artistic sleight of hand, transforms itself into a second great international orchestra in Brazil? This would confirm the moment of euphoria we are experiencing in the country and would put us on the map of symphonically important countries. In the present situation, it is difficult to have hope. If this hypothesis is confirmed, we will live through the battle of the traumatic process, we will continue to  fight for the respect and dignity of our musicians, but some positive result will have come from this tsunami which has devastated our orchestra.

If not, the crime will be capital and there will be no pardon.

John Neschling