quinta-feira, 24 de março de 2011

Escola de Música

De: Dr. André Cardoso – Diretor da Escola de Música da UFRJ.
Para: Sr. Eleazar de Carvalho Filho – Presidente do Conselho Curador da Fundação Orquestra
Sinfônica Brasileira.

Ilustríssimo Sr. Eleazar de Carvalho Filho

A Congregação da Escola de Música da UFRJ reunida em 22 de março de 2011 aprovou o
presente documento que é encaminhado a V.Sa. com o objetivo de contribuir para a solução da crise que atravessa a Orquestra Sinfônica Brasileira.
As relações entre nossas instituições vêm de longa data e a história da OSB mostra
inequivocamente que ela nasceu dentro da Escola de Música da UFRJ a partir da ação pioneira e visionária de um grupo de nossos docentes: José Siqueira, Alfredo Gomes, Antão Soares, Orlando Frederico, Moacir Lissera e Antônio Leopardi. A Escola de Música foi o local onde, em 1940, foram realizadas as audições para a escolha dos músicos que formariam o primeiro corpo orquestral e nosso Salão Leopoldo Miguez foi o primeiro local de ensaios da OSB. Na Escola de Música também se realizou a primeira reunião pública para subscrições de ações da OSB em 05 de agosto de 1940. A antiga foto que registra o momento histórico mostra que além dos citados professores e outros esteve presente o então jovem maestro Eleazar de Carvalho, nosso exaluno e professor. Tal fato revela que as relações históricas e pessoais de V. Sa. com a OSB são a garantia de que, enquanto Presidente do Conselho Curador, agirá sempre em prol do
engrandecimento e das maiores aspirações da Orquestra Sinfônica Brasileira.

Isto posto gostaríamos de manifestar nossa discordância com a decisão de submeter os músicos profissionais da orquestra a uma audição com o objetivo de reavaliá-los artisticamente. Entendemos que tal procedimento seja adequado para novos músicos que desejam ingressar na orquestra e cujo desempenho, muitas vezes, é desconhecido. Músicos gabaritados e com muitos anos de experiencia devem ser avaliados no trabalho cotidiano, durante ensaios e concertos. Uma audição nos moldes da que foi proposta é desnecessária e inútil. O maestro titular da orquestra deveria saber quais são as deficiências eventuais e pontuais de seus músicos, da mesma forma como qualquer músico de orquestra profissional sabe avaliar a competência daquele que os dirige. Por isso submeter os músicos, inclusive spallas e solistas que são postos da mais alta confiança, a uma constrangedora audição é medida desnecessária.

É igualmente inútil, pois não contribuirá em nada para a melhoria do desempenho da orquestra. Organismos coletivos por natureza, as orquestras profissionais só se desenvolvem com um trabalho de longo prazo e baseado na valorização das virtudes individuais que são colocadas em prol do conjunto. Acreditamos que a excelência, entendida como o mais alto grau de qualidade, só pode ser atingida quando se consegue extrair das pessoas aquilo que elas tem de melhor. Com a metodologia escolhida não será possível atingir tal objetivo, pois a mesma só se revela desagregadora e geradora de conflitos. Ao mesmo tempo é absolutamente incoerente pretender desenvolver e melhorar a Orquestra Sinfônica Brasileira suspendendo sua temporada de concertos.

Mas tal decisão assume contornos de irresponsabilidade quando se pretende que a OSB Jovem assuma parte da temporada de concertos da orquestra profissional, quando seus objetivos deveriam ser outros. É um grande erro que precisa ser revertido imediatamente, de modo a não prejudicar o desenvolvimento musical e artístico de jovens instrumentistas. Assim como aconteceu em 1940 com a OSB, a OSB Jovem também nasceu dentro da Escola de Música da UFRJ. Em 1999 apoiamos e abrimos as portas de nossa Escola para a OSB Jovem que não possuía, assim como ainda hoje não possui, local próprio e adequado para seus ensaios. Após vários ensaios a orquestra realizou seu primeiro concerto no Salão Leopoldo Miguez em 13 de dezembro daquele ano. Desde então nossos alunos passaram a fazer parte em grande número dos quadros da OSB Jovem e nos preocupa a enorme sobrecarga de trabalho a qual serão submetidos tendo a responsabilidade de substituir músicos profissionais perante os assinantes da OSB. Ainda que com formação adequada para a abordagem de repertório de grande exigência em termos técnicos e estilísticos, formação esta ministrada pelas instituições de ensino superior do Rio de Janeiro (Escola de Música da UFRJ, Instituto Villa-Lobos da Uni-Rio e Conservatório Brasileiro de Música) como comprova a maioria dos integrantes da orquestra, os jovens músicos ainda não podem ser expostos às pressões decorrentes do exercício profissional da atividade orquestral.

Tal situação anômala enseja igualmente considerações afeitas à ética profissional. A participação da OSB Jovem na temporada de assinaturas no lugar da orquestra profissional se torna ainda mais grave quando acontece em meio a uma crise na qual os jovens músicos se vêem constrangedoramente envolvidos e obrigados a substituir até mesmo seus professores. Assim sendo, senhor presidente, acreditamos que os membros do Conselho Curador da Orquestra Sinfônica Brasileira foram induzidos ao erro e levados a acreditar em uma estratégia que já se mostrou ineficiente, pois baseada em premissas erradas, e ao mesmo tempo desastrada, já que a negativa repercussão certamente trará prejuízos indeléveis à imagem da instituição junto ao público e aos patrocinadores se não for revertida imediatamente. Em vista do acima exposto a Congregação da Escola de Música da UFRJ manifesta sua discordância com os procedimentos adotados e que jogaram a OSB e a vida musical carioca numa inexplicável e vergonhosa crise de repercussão internacional. Assim sendo sugerimos a V. Sa. que anule as audições para os músicos profissionais da Orquestra Sinfônica Brasileira, cancele a participação da OSB Jovem na temporada de concertos em substituição aos músicos profissionais e restabeleça a normalidade da série de concertos. Em assim procedendo estará honrando sua história pessoal, os 70 anos de realizações artísticas da OSB e contribuindo decisivamente para a superação do impasse.

Muito atenciosamente
Rio de Janeiro 22 de março de 2011
Dr. André Cardoso
Diretor da Escola de Música da UFRJ
Escola de Música da UFRJ
Rua do Passeio 98
Lapa – Rio de Janeiro – RJ
20.021-290
Tel/Fax: (21) 2532-4649
diretor@musica.ufrj.br
www.musica.ufrj.br