sexta-feira, 4 de março de 2011


EXCELÊNCIA - Pronome de tratamento ou qualidade artística?

Tristes dias vivemos no cenário artístico musical do Rio de Janeiro. A crise instalada na Orquestra Sinfônica Brasileira desde que foi anunciada uma prova de avaliação de todos os seus músicos integrantes,  atinge a todos os artistas do nosso país. No momento em que o mundo todo, como num efeito dominó, tenta acabar com a ditadura em seu amplo sentido, uma nova tenta se instalar na OSB.

A Orquestra Sinfônica Brasileira fez sua história gloriosa e famosa com o esforço de seus músicos. Nas suas temporadas internacionais, músicos estrangeiros abraçaram a pátria natal da OSB como seus lares, fizeram escola e formaram novos músicos, hoje integrantes de nossas orquestras. Brasileiros e estrangeiros fazem a OSB de hoje com suas histórias no passado de muita luta e suor, muitas vezes não recebiam seus salários no final do mês, mas seguiam em frente tocando e fazendo a temporada artística porque amavam seus instrumentos e a casa que os acolheu.

Eu mesma tive o prazer de pertencer ao quadro da  OSB nos anos 80 e aprendi muito lá. Aprendi o respeito aos músicos mais velhos, mesmo aqueles que agora são colocados a prova para esta avaliação. Tive a honra de tocar com músicos como João Daltro, José Alves, Frederick Stephany, Jandovy de Almeida (melhor professor de dedilhado que já tive), Henrique Niremberg, meu querido Nayran (saudades da 3ª estante e dos duetos e música de câmara antes dos ensaios), Noel Devos, Botelho, Swab entre tantos outros músicos maravilhosos e indispensáveis à minha vida profissional. Me lembro com saudades do Vovô Niremberg, carinhosamente chamado por nós, que mesmo com sua adiantada idade, mesmo com seus dedinhos já vacilantes, tanto me ensinou com seu instrumento e com suas histórias de vida. Jandovy, o bom humor personificado, já contava com mais de 70 anos, quando eu entrei para a OSB, e foi com ele que aprendi os melhores dedilhados de partituras extremamente difíceis que guardo comigo até hoje.
Presto minha homenagens à estas pessoas maravilhosas que ajudaram na minha formação musical e  profissional que tenho hoje,

Mas porque estou falando delas?
Fico imaginando se estes músicos maravilhosos com quem trabalhei durante anos, que sabiam tudo sobre as partituras e me ensinaram tanto, se  também teriam que passar por esta avaliação imposta cruelmente pela direção da OSB? Fatalmente eu ficaria privada destas preciosas informações se estivesse entrando na OSB agora. Não consigo imaginar o Vovô Niremberg tendo que provar alguma coisa para alguém, porque simplesmente ele era o Vovô Niremberg no auge da sua sabedoria.
Numa orquestra existem muitos ensinamentos que nenhuma  avaliação de desempenho pode demonstrar. As vezes pequenos conselhos de nossos companheiros de estante que já trilharam uma longa estrada musical fazem toda a diferença na hora da execução das partituras. Aliás, talvez seja esta a melhor forma de fazer uma orquestra melhorar. A experiência da vida musical de seus músicos é a melhor conselheira, a oportunidade de aprender com quem já fez, é assim que se chega a excelência buscada.
A mensagem passada aos novos músicos que estão chegando na OSB jovem é inversa àquela que aprendi. Obrigando-os a substituir a programação da OSB se passa a mensagem de que não precisa se respeitar absolutamente nada, não precisa respeitar os mais experientes, não precisa respeitar a história, basta obedecerem que ficaremos bem. Triste aprendizado para os novos músicos, triste aprendizado para os futuros músicos das nossas orquestras, triste cenário para nossos palcos.
Esta substituição é uma clara demonstração de retaliação aos músicos profissionais que se recusarem a fazer esta avaliação; e que não precisariam, pois suas existências já os avalizam e os aprovam para estarem lá, pois são eles que fazem a OSB.

Volto à crise da nossa irmã musical e não posso omitir o denominador em comum com a OSTM. 2009 foi um ano de muita luta para nós da OSTM, porque a mesma crise tentava se instalar em nosso palco. Somos eternamente gratos ao Governador Sergio Cabral, aos Deputados da Alerj que evitaram que o nosso Theatro Municipal se transformasse neste mesmo cenário de terror que hoje tenta se instalar na OSB.

É preciso entender em definitivo que arte não se faz assim, quem não consegue entender que arte é a liberdade de expressão e que não combina com repressão, nunca será um artista na sua mais sublime definição. É necessário cumplicidade entre TODOS para que se chegue a excelência da obra.
Música é arte, música é cumplicidade, música é poder colocar as lágrimas de emoção em seus instrumentos e passar esta emoção ao público. Entendam que o músico antes de qualquer contrato é um artista, ele não toca em uma orquestra somente pelo dinheiro, mas primeiramente pela necessidade vital de tocar seus instrumentos e poder extravasar suas emoções através das partituras.
As regras são necessárias, o salário também o é, mas se não houver arte de ambos os lados, o público nunca conseguirá alcançar a verdadeira  linguagem dos anjos.

Quero acreditar que a frente  da direção da FOSB existam artistas e não somente gestores.
Arte e gestão podem caminhar juntas, como cúmplices. É possível trabalhar desta forma, afinal foi desta forma que a OSB chegou gloriosa aos seus 70 anos.
 A tão sonhada excelência buscada pela direção da OSB já existe em seus músicos, pois do contrário, com certeza não teríamos comemorado os 70 anos de existência da fantástica OSB.

Que DEUS ilumine os músicos da OSB e coloque arte e cumplicidade nos corações de seus diretores.

Jesuina Noronha Passaroto
Presidente da Associação dos Músicos do Theatro Municipal do RJ
Diretoria SINTAC