quinta-feira, 10 de março de 2011

Mensagem de Nigel Shore ao Presidente da FOSB, Dr. Eleazar de Carvalho Filho

 Prezado Senhor Presidente,

devido aos recentes desenvolvimentos dentro da OSB sinto-me obrigado a
comunicá-lo meu profundo desacordo com as medidas que a Fundação está
tomando, assim como meu desgosto com a maneira com a qual essas
medidas foram comunicadas aos músicos mesmos.

Como o senhor provavelmente saiba, encho o cargo de primeiro oboé
solista da OSB. Maestro Minczuk me convidou em 2008 para um ano e,
depois de não ter encontrado um oboista com nível e experiência
adequado nas audições de 2009, me convidou de volta para encher este
cargo com permanência, o que faço desde novembro de 2009 com prazer e
honra. Em dezembro de 2010 Maestro Minczuk comunicou numa conversa
extensa comigo o seu desejo de melhorar o nível da orquestra e me
convidou a liderar as madeiras, reiterando a importância que ele
presta à presença de músicos experientes dentro da orquestra. No meu
caso trata-se de experiência que ganhei tocando com a Filarmônica de
Berlim, a Ópera do Estado de Berlim, a Ópera Cómica de Berlim e várias
outras orquestras de nível internacional e trabalhando com regentes
como Karajan, Barenboim, Giulini e Abbado durante mais que 20 anos.

Mesmo sabendo que o maestro desejava uma certa reforma e concordando
com ele, mas acreditando que íamos seguir um caminho coletivo de
crescimento artístico baseado em trabalho árduo, experiência musical e
respeito mútuo, fiquei atônito ao receber o comunicado sobre a
proposta de avaliação de desempenho. Depois de ser convidado duas
vezes a fazer parte da OSB e depois de ser convidado a compartilhar
minha experiência com meus colegas como líder das madeiras, é
incompreensível que em seguinte eu deveria me submeter a uma avaliação
que é basicamente igual a uma prova para entrar numa orquestra.

Mas o meu caso não é importante. É unicamente um exemplo para
sublinhar a impropriedade de uma tal medida. O fato de pensar que uma
avaliação de desempenho poderia induzir qualquer melhora musical
mostra um profundo desconhecimento do caráter e composição de uma
orquestra. Uma audição da programação pedida pela avaliação de
desempenho é uma medida para pôr a prova jovens músicos recentemente
formados expressamente para ver se tiverem o nível técnico básico para
entrar na profissão, para começar suas carreiras, para embarcar numa
trajetória artística abrangendo uma vida de aprendizagem musical, de
dedicação à expressão emotiva pela música. Uma orquestra no entanto,
sobre tudo uma orquestra de tradição que existe mais que 70 anos, é um
conjunto vivo que se desenvolve (como maestro Minczuk esclareceu
recentemente numa entrevista na Veja), que é composto de indivíduos
que trazem todos sua experiência tanto pessoal como musical. Estes
músicos individuais mostram seu mérito no que eles aprenderam durante
uma vida no palco, tocando um repertório diverso com os mais variados
regentes. Talvez não cada músico toque mais um concerto solo, por
exemplo de Mozart ou Brahms, com a perfeição técnica que ele tinha
como recentemente licenciado, mas com certeza ele toca este mesmo
concerto com muito mais maturidade, com muito mais sabedoria e com
muito mais confiança estilística, qualidades com as quais ele também
toca seu repertório orquestral diário, isso todo resultando do
profissão diversificada e gratificante que é o nosso privilégio de
exercer. É isso que compõe uma orquestra; é isso a mesma experiência
da qual maestro Minczuk queria tirar proveito.

Sou convencido do que o único jeito de realizar um resultado musical
de altíssimo nível é de trabalhar juntos e de mostrar a disposição
mútua de trabalhar juntos para o ideal comum artístico. Todos. Não de
criar um ambiente de ele contra eles contra nós mas de se unificar por
e para a música.

Eu para mim tomei minha decisão de sair da OSB, pois não posso apoiar
um sistema de avaliação tão fundamentalmente errado. Mas imploro você,
salve esta orquestra agora, resgate todos de uma situação que só pode
piorar, de um futuro de luta e briga. Por favor, se unam administração
com maestro e músicos, cancelam esta avaliação absurda e encontrem
juntos um caminho para voltar à música e evoluir um instituto de alto
nível digno do nome da Orquestra Sinfônica Brasileira.

Atenciosamente

Nigel Shore