terça-feira, 12 de abril de 2011

CARTA ABERTA

Nelson Nirenberg

Aos Músicos, Conselho e Administradores da Orquestra Sinfônica Brasileira:

Desde tenra idade estou ligado à Orquestra Sinfônica Brasileira. A família Nirenberg é parte da história da OSB.  Meu pai, Prof. Jaques Nirenberg, juntamente com o saudoso Maestro José Siqueira fundou a OSB, e formou diversos de seus integrantes.

Meu tio, Maestro Henrique Nirenberg, regeu, foi Spalla, assim como ensaiou e preparou, para regentes menos aptos, a OSB para as turnês aos Estados Unidos e Europa.

Meu irmão Ivan Sérgio Nirenberg integra a OSB há mais de 30 anos, ocupando a posição de Concertino do naipe violístico.  

Após vencer diversas vezes os concursos para solista da OSB nos anos 60, com ela apresentei-me e fui o criador do Projeto Aquarius em 1970, custando-me dois longos anos para convencer a já, então, inepta administração que este era o momento de renovação de platéias e de associação com as Organizações Globo. Regi e fui solista simultaneamente no primeiro concerto na Quinta da Boa Vista em 14/05/1972, despedindo-me do Brasil e prosseguindo minha carreira nos Estados Unidos e Europa. 

Posteriormente, em 1975, solicitado pelo Prof. Otávio Gouveia de Bulhões e Israel Klabin, fiz um projeto de valorização dos músicos da OSB, com incentivos para aprimoramento e desenvolvimento da Escola de Formação de jovens músicos da OSB, com a participação dos professores da orquestra.  Nada aconteceu.  E retornei por mais algumas dezenas de anos aos Estados Unidos.

Preliminarmente, lamento que a administração da OSB não tenha memória e respeito a nada e com ninguém.  Apenas aproveita os fundos que recebe e poucos sabem como são utilizados. Mas, os salários dos músicos permanecem insuficientes para que se dediquem integralmente.  Mesmo assim, não desistem nunca e, apesar de todas as dificuldades que enfrentam, trabalham com afinco e garra.

Após 30 anos como Professor de Regência e Maestro Titular/Diretor Artístico de várias orquestras profissionais no exterior, tendo sido eleito pelos músicos das orquestras profissionais que dirigi, surpreendeu-me a notícia que os músicos da Orquestra Sinfônica Brasileira teriam que realizar prova pública de avaliação - a meu ver um novo injusto concurso. 

Jamais soube que um membro de uma orquestra profissional em qualquer parte do planeta, com possível exceção da antiga Alemanha Oriental e da Coréia do Norte, tivesse que fazer provas públicas após seu ingresso na orquestra.

Hoje vejo a destruição de uma instituição septuagenária, por surto de megalomania. A evidente vaidade, a arrogância e o puro interesse de aparecer como ”dono” da música no Brasil no jornal International Musician, lido por empresários e músicos das principais orquestras, oferecendo vagas na glamorosa cidade do Rio de Janeiro, com audições em Londres e Nova York, supera qualquer vontade genuína de elevar a qualidade artística e de fazer Música.

Há de se esclarecer que uma orquestra não é formada por solistas e sim por outro tipo de talento musical.  Um talento especial que permite se agregar e acrescentar à constelação orquestral.  Como no céu existem estrelas de brilhos diferentes, ao observamos o céu límpido notamos que o conjunto destas luminosidades distintas fazem um belíssimo e completo espetáculo. 

Analogamente, a tarefa deste encontro de estrelas musicais, passa a ser do Maestro – catalizador destas energias e brilhos heterogêneos. Mas, caso não compreenda sua função, não tenha o conhecimento, a arte, a sensibilidade e a competência necessárias, jamais poderá elevar o patamar artístico de uma orquestra e sequer ser considerado como tal.   

Não se eleva artisticamente um conjunto, desagregando-o. Basta estudar e praticar música de câmara para se compreender o que é e como deve funcionar uma orquestra sinfônica. Resumindo: diálogo constante.

O músico é um dos poucos profissionais que se expõe e é avaliado em sua labuta diária perante multidões e por seus próprios colegas.  Coincidentemente, a experiência demonstra ser um dos profissionais que mais reconhece suas limitações e o momento de cessar com suas atividades.  Se um regente não conhece seus músicos em curto espaço de tempo, ele é desqualificado para exercer esta complexa profissão.

Assim, jamais se tornaria necessário fazer uma absurda execração pública de profissionais, como a planejada pela administração da OSB, muitos no auge de sua sapiência, quando estão transmitindo todo cabedal de conhecimentos aos jovens colegas e ao público.

Músicos que deram literalmente suas vidas, e, como deveria ser do conhecimento de todos o caso da Orquestra Sinfônica Brasileira, passaram por privações e até momentos de fome, pois a inepta administração não lhes pagava seus salários, merecem respeito. Somente através destes abnegados foi que a OSB conseguiu sobreviver os desmandos  que ocorreram nestes 70 anos de existência.  O momento é de honrá-los, prestigiá-los como artistas que são. Não tratá-los como escória.

Que péssimo exemplo às futuras gerações a administração da OSB oferece.  A moral, a ética e a memória, faltantes em nossos dias, deveriam permear instituições que vivem de tradições e, supostamente, se afirmam, como a OSB, em prol da cultura e educação, e com recursos públicos!

O regente deve ser uma fonte de inspiração artística para seus colegas, um facilitador da linguagem musical, seu trabalho consiste no convencimento de seus colegas através do seu preparo, conhecimento, profunda “artisticidade” e sensibilidade.  Música é sensibilidade, é transformar o ar em sentimentos e emoções que integram todos os recônditos da existência humana.  Pergunto-me como pode alguém fazê-la, interpretá-la, e liderar um conjunto orquestral sendo tão insensível aos sentimentos de seus semelhantes?

Portanto, desejo expressar meu integral apoio aos colegas da Orquestra Sinfônica Brasileira. Lutem por seus direitos, não permitam que injustiças e ditaduras venham a dominá-los. Atos fascistas – NUNCA MAIS.  Excelência alcança-se através de lideranças sensíveis, competentes, direitos assegurados, trabalho e capacidade, capazes de escutar e aprender sempre.

Força e Dignidade,

Nelson Nirenberg