quarta-feira, 20 de abril de 2011

Crise na OSB : Alain Lompech editor de cultura do jornal francês “Le Monde” - Publicado em 20/04/2011 por semibreves

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Contribuição de Alain Lompech
Publicado em 20/04/2011 por semibreves

O texto que abaixo reproduzo é um comentário ao meu último post. No entanto, dada a importância de seu conteúdo e a importância de quem o redigiu, achei necessário estampá-lo com destaque nesse blog. O original, em francês, é de autoria de Alain Lompech, editor de cultura do jornal francês “Le Monde”, um dos mais importantes jornais europeus e cuja irradiação é imensamente maior do que a desse modesto blog. Em seguida tomei a liberdade de traduzi-lo para o português, para que fosse compreensível para todos os leitores. Finalizo dizendo que é uma honra para esse blogueiro poder trazer aqui com exclusividade um texto de Alain Lompech sobre a nossa realidade musical e cultural. Mais feliz ainda fico por observar que muito daquilo que vem no texto condiz com as linhas mestras do pensamento que venho tentanto expressar no decorrer dos últimos 10 meses de existência desse blog. Divirtam-se.

“A única coisa que pode estar por detrás do “affair” OSB é a mediocridade intelectual de indivíduos que não entenderam que uma instituição artística é mais importante do que aqueles que detém um simples poder temporal sobre ela. Eles precisam devolvê-la num estado melhor do que aquele que existia quando as chaves lhes foram entregues.

Uma instituição não é um utensílio de promoção pessoal: quando este é o caso, não passa de uma catástrofe e da ruína. Só quando os seus dirigentes não têm outro objetivo senão fazer crescer a instituição, é que o prestígio dessa instituição acaba por resvalar sobre eles próprios.
O Brasil é um país que, visto de fora, mudou profundamente. Não é mais somente aquele país tropical, sensual e perigoso, um país perseguido por um futuro radioso, que nunca consegue alcançá-lo. O Brasil está finalmente sendo visto pelo que ele é, um país cujas culturas erudita e popular são tão importantes para o mundo quanto a floresta amazônica o é para o equilíbrio ecológico do planeta.

A mediocridade intelectual a que me referia está refletida naquilo que a OSB não representa, mas que deveria representar para os seus tutores, tanto públicos quanto privados: o tesouro nacional que deveria ser. O resultado é que se confia a instituição a artistas e a administradores que não têm a consciência do desafio que esta instituição representa, do seu passado e do seu futuro, e das fortes implicações que ela necessita excercer na vida intelectual e musical do país.

A única justificativa que existe para que se mantenha uma instituição sinfônica, assim com uma ópera, é que ela crie a música de nosso tempo e que ela mantenha vivo o repertório no seu mais alto nível de qualidade.
O Brasil possue recursos financeiros e intelectuais para levar um tal projeto à vitória. Ele o pode e ele o deve.”
Voilà…

La seule chose qui soit derrière l’affaire OSB, c’est la médiocrité intellectuelle d’individus qui n’ont pas compris qu’une institution artistique était plus importante que ceux qui détiennent un simple pouvoir temporel sur elle. Ils doivent la rendre en meilleur état que le jour où ils en ont reçu les clefs.
Une institution n’est pas un outil de promotion personnelle : quand il en est ainsi, ce n’est que catastrophe et ruine. Quand ceux qui la dirigent n’ont qu’un but : faire grandir l’institution, alors le prestige de l’institution rejaillit sur eux.
Le Brésil est un pays qui, vu de l’extérieur, a profondément changé. Il n’est plus seulement ce pays tropical, sensuel et dangereux, ce pays poursuivi par un avenir radieux qui ne le rattrapait jamais. Le Brésil est enfin vu pour ce qu’il est, un pays dont la culture érudite et populaire est aussi importante pour le monde que la forêt amazonienne l’est pour l’équilibre écologique de la planète.
La médiocrité intellectuelle dont je parlais vient de ce que l’OSB n’est pas regardé par ses tutelles, autant publiques que privées, comme le trésor national qu’il devrait être. Alors, on le confie à des artistes et des administrateurs qui n’ont pas conscience de l’enjeu que représente cette institution, de son passé comme de son avenir et de la forte implication qu’elle doit avoir dans la vie musicale et intellectuelle du pays.
La seule justification qu’il y a de maintenir en vie une institution symphonique, comme un opéra, est qu’elle créée la musique de notre temps et qu’elle maintienne en vie le répertoire au plus haut niveau de qualité possible.
Le Brésil a les ressources financières et intellectuelles pour mener un tel projet à la victoire. Il le peut et il le doit.