quinta-feira, 14 de abril de 2011

G1 - Pop & Arte

14/04/2011

Músicos demitidos da Orquestra Sinfônica Brasileira cancelam apresentação na manhã do último domingo (10), no Teatro Municipal do Rio de Janeiro (Foto: Neco Varella/AE)Músicos demitidos elaboram contraproposta para voltar à OSB

Reivindicações serão encaminhadas ainda nesta quinta-feira (14).
Fundação ofereceu rever demissões e realização de avaliação em grupo.


Henrique Porto Do G1 RJ
 
Músicos demitidos da Orquestra Sinfônica
Brasileira cancelam apresentação na manhã do
último domingo (10), no Teatro Municipal do Rio de
Janeiro (Foto: Neco Varella/AE)
 
Músicos demitidos da Orquestra Sinfônica Brasileira (OSB) definiram nesta quinta-feira (14) uma contraproposta para serem reintegrados à OSB em reunião que terminou por volta das 12h30, realizada na sede do Sindicato dos Músicos do Estado do Rio de Janeiro (SindMusi), no Centro da cidade.
As reivindicações serão encaminhadas à Fundação OSB ainda na tarde desta quinta-feira (14). A diretora do sindicato, Déborah Cheynne, disse ao G1 que não poderia adiantar os termos da contraproposta, mas afirmou que ela esta mais "bem elaborada".

“Posso adiantar que esta é uma proposta que atende melhor à demanda dos músicos demitidos, bem como à dos instrumentistas que permanecem na orquestra", explicou Déborah, que também é musicista da OSB.
Na última semana, a fundação propôs, entre outros itens, a reintegração dos 33 músicos demitidos, com a condição de converter a justa causa em uma suspensão de três dias, além de submetê-los a uma nova avaliação em junho, desta vez em grupo.

"O acordo que nos foi apresentado pelo presidente da OSB, Eleazar de Carvalho Filho, simplesmente nos reconduz ao trabalho retirando apenas a justa causa, mas mantendo ainda com outras duas punições: uma advertência e uma suspensão de três dias. O que, a meu ver, não representa um retorno muito honroso”, explicou a presidente do Sindicato dos Músicos do Rio e integrante da orquestra.

Crise na orquestra

Os músicos foram afastados em março último depois de se recusarem a realizar avaliações individuais de desempenho propostas pela instituição.
Segundo a assessoria de imprensa da OSB, o exame acontece da seguinte forma: divididos por naipes (cordas, sopro, percussão, entre outros), os instrumentistas são identificados por um número e recebem o trecho de uma obra que faça parte do repertório fixo da orquestra nos últimos dois anos. A sequência é então executada sem que haja contato visual entre os músicos e os integrantes da banca examinadora.
“Não somos contra avaliação, pelo contrário. Só defendemos um tipo de teste necessário ao desempenho da nossa atividade. Um exame individual entre 25 e 30 minutos não avalia o desempenho do integrante de uma orquestra. Nossos músicos não são solistas. Inclusive um grande solista nem funciona dentro de uma orquestra. É como colocar Plácido Domingo para cantar em um coral. E ainda existem os fatores artísticos, que devem ser levados em consideração”, disse a musicista.

Além das propostas de rever as demissões e realizar avaliações em grupo, a oferta da OSB aos ex-integrantes inclui manutenção dos resultados dos músicos já avaliados; manutenção da OSB Jovem e a substituição dos músicos da OSB Jovem por instrumentistas profissionais da casa durante a agenda do primeiro semestre de 2011.

Saia-justa política
Mesmo com modificações na avaliação, entretanto, Deborah afirma que o grupo de músicos demitidos também quer o desligamento do maestro Roberto Minczuk, que também acumula o cargo de diretor artístico da instituição.
"É muito difícil de imaginar a convivência deste maestro com os músicos depois de toda essa confusão. Inclusive, muitos deles que fizeram a avaliação também se sentem incomodados com Minczuk. E é um absurdo ele ocupar dois cargos dentro da Fundação. Todas as decisões acabam sendo tomadas por ele, pois não existe diálogo com os músicos. A gente deixa de dialogar com dois setores", afirmou.
Por e-mail, presidente da Fundação OSB, Eleazar de Carvalho Filho, declarou lamentar "profundamente tudo o que vem acontecendo" e explicou os motivos pelos quais a instituição decidiu adotar novas avaliações.

"Desde o início, o propósito da Fundação OSB foi de elevar a qualidade artística da orquestra, para que ela alcance um nível de excelência internacional. Existe um projeto por trás das ações, elas não se sustentam isoladamente", disse Carvalho Filho, reforçando que as avaliações "serviram como mais um meio para que pudéssemos apurar o rendimento artístico do corpo orquestral, oferecendo um feedback individual a cada integrante".

O presidente da fundação destacou também que os testes foram feitos com peças que já faziam parte do repertório da OSB nas últimas temporadas e avaliados por integrantes de orquestras internacionais reconhecidos. "Nosso projeto maior é transformar a OSB na principal orquestra do país nos próximos anos, além de possibilitar a gravação de CDs e DVDs e a realização de turnês no exterior, entre outras ações", explicou, citando ainda a oferta de um aumento de 50% nos salários partir de julho. "Os músicos passam a receber entre R$ 9 mil e R$ 11 mil, um dos maiores salários da América Latina", disse.

Crise já dura quase cinco meses
A crise na Orquestra Sinfônica Brasileira teve início em janeiro deste ano, quando a Fundação OSB anunciou que os músicos passariam pelas tais avaliações. Alegando que já haviam feito teste semelhante para entrar na orquestra, os instrumentistas se colocaram contra a avaliação, mesmo depois de o repertório ter sofrido mudanças a pedidos. A Fundação não recuou, o que provocou o boicote da maior parte dos músicos às provas, que começeram no dia 10 de março.

Diante do impasse, um Programa de Demissão Voluntária foi oferecido pela instituição aos seus músicos entre os dias 24 de fevereiro e 2 de março de 2011. A iniciativa, aceita por apenas três integrantes, incluía verbas relativas à demissão sem justa causa (aviso prévio, multa de 40% do FGTS e saque do saldo do FGTS) além da continuidade dos salários e do plano de saúde até o final do mês de junho de 2011.
Uma reunião no Ministério do Trabalho no início de março foi marcada como tentativa de pôr fim ao imbróglio. Foi elaborado um novo PDV, mas os músicos o recusaram, o que acarretou a demissão por justa causda de 33 deles.

Apesar da resistência, as avaliações de desempenho, que ocorreram entre 10 e 21 de março, na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), contaram com a participação de 35 músicos, que já estão de volta ao trabalho.
A crise ganhou repercussão internacional, que incluiu comentários de críticos, maestros e músicos clássicos na internet, quase sempre citando o maestro Minczuk como a causa maior do problema.
Depois das demissões em massa, artistas convidados da temporada 2011 da OSB cancelaram suas apresentações, como a bailarina Ana Botafogo e os pianistas Nelson Freire e Cristina Ortiz.

O episódio mais emblemático envolvendo o impasse entre a direção da OSB e seus músicos aconteceu no último sábado (9), durante o primeiro concerto da temporada 2011. A ocasião marcaria a apresentação da OSB Jovem no Theatro Municipal do Rio, mas um grande protesto, dentro e fora do local, fez com que o concerto fosse interrompido. Minczuk foi muito vaiado pelo público, os músico da OSB Jovem sairam do palco e o maestro teve que se retirar.
No e-mail enviado ao G1, o presidente da Fundação OSB disse que "mesmo com a manifestação ocorrida no início do concerto da OSB Jovem no sábado, de nossa parte os termos tratados estão mantidos”.