terça-feira, 5 de abril de 2011

O Globo

Maestro questiona: 'Que patrocinador gostaria de unir sua instituição a uma orquestra esfacelada?'


Isaac Karabtchevsky *

RIO - Tenho acompanhado pelos jornais e por meio de amigos músicos a crise da Orquestra Sinfônica Brasileira. Confesso que tenho alguns calafrios pelas notícias que me chegam quando penso em como está sendo organizada a "Nova OSB". A estratégia, por enquanto, foi apresentar ao público uma programação com um conjunto musical de jovens alunos, ainda sem a devida experiência, apenas para encobrir um processo de demissão nunca visto na história de uma orquestra. Em alguns casos, o que se propõe é que os alunos substituam seus próprios mestres - músicos comprometidos há anos com a história da OSB, muitos dos quais tocaram em concertos com salários atrasados, mesmo em um passado bem recente.

O único caso no mundo onde são feitas avaliações dentro da mesma orquestra é quando se muda seu estatuto jurídico, quando se refunda o conjunto trocando até seu nome. Afora isso, mais explicitamente numa fundação, trata-se de um pleonasmo, de uma manobra que apenas depõe contra a verdadeira vocação democrática da mais tradicional orquestra do país. Fui diretor artístico de três orquestras durante 23 anos, em Viena, em Veneza e na França, e regi como maestro convidado nos Estados Unidos, no Canadá, no Japão e nos principais países europeus. Em qualquer dessas nações o que está acontecendo com os músicos brasileiros seria impensável, e por esta razão severas críticas vêm sendo feitas por inúmeras entidades musicais espalhadas pelo mundo.

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A OSB é uma grande orquestra, formada no Brasil pela visão de José Siqueira com o apoio maciço da classe musical carioca e o aproveitamento e acolhimento de músicos refugiados do nazismo, recém-aportados ao Rio de Janeiro. Foram muitos, e foi por eles que a orquestra adquiriu a forma democrática de ser que a tornava exemplar.

Nos oito anos do primeiro regente, Eugen Szenkar, à frente da orquestra, nos três de Lamberto Baldi, nos dez de Eleazar de Carvalho, nos dois de Alceo Bocchino, nos meus 25 (com uma turnê à Europa e outra aos Estados Unidos), nos dois de Roberto Tibiriçá e nos seis de Yeruham Sharovsky jamais houve uma avaliação coletiva de seus músicos. Aqueles que saíam, por força de doenças ou impedimentos, preservavam com a instituição uma relação de respeito e cordialidade, criando uma história única no cenário cultural do Brasil.

Como não poderia deixar de ser, após ter sido seu diretor por tantos anos, tenho pela OSB enorme carinho e posso dizer que parte do meu crescimento artístico se deu junto a tantos músicos que agora estão sendo expelidos sem nenhum toque de compaixão. Faço daqui um apelo, a todos aqueles que tomaram esta deliberação, que tenham a grandeza de reconsiderar sua decisão a fim de que a história da orquestra, tão rica de conquistas artísticas, de exemplos de superação e, principalmente, de humanidade, possa ser preservada com orgulho.

É imprescindível para manter a sustentabilidade de uma orquestra preservar o seu bom nome; afinal, que patrocinador gostaria de unir sua instituição a uma orquestra esfacelada, dividida, cuja direção virou motivo de desprezo não apenas no meio musical, mas na sociedade civil nacional e internacional? A OSB existe há 70 anos, e certamente teve anos muito mais gloriosos do que os atuais.

* Isaac Karabtchevsky é diretor artístico e regente titular da Orquestra Petrobras Sinfônica do Rio de Janeiro e diretor artístico da Sinfônica de Heliópolis