terça-feira, 5 de abril de 2011

O Globo - Segundo Caderno -  4.4.2011
Catharina Wrede
Nelson Freire e outros músicos
convidados boicotam a OSB
  
Cristina Ortiz e Roberto Tibiriçá também cancelaram apresentações;
demissões seguem

NELSON FREIRE: pianista se disse "chocado" com as demissões

Catharina Wrede 

RIO - A temporada 2011 da Orquestra Sinfônica Brasileira (OSB) começa a sofrer as consequências da crise que afeta a instituição, com músicos convidados recusando-se a se apresentar com o conjunto. Após o anúncio de que metade da orquestra está em processo de demissão por justa causa pela fundação que a administra, o pianista Nelson Freire cancelou seus concertos este ano . Em comunicado à imprensa, a assessoria do pianista, que tem a mais longa história junto à OSB - 55 anos -, informou que o músico está chocado com os acontecimentos recentes:

"Tendo acompanhado as notícias através de todos os jornais, o pianista Nelson Freire decidiu cancelar os compromissos com a OSB em 2011, chocado com a demissão em massa dos músicos."
Nelson faria dois concertos em agosto, no Teatro Municipal: um no dia 6, dentro da série Concertos Especiais, e outro, dia 10, abrindo o Festival Beethoven - no qual interpretaria a Abertura Egmont, a Sinfonia n 1 em Dó maior, e o Concerto para piano n 4 em Sol maior. O músico foi o terceiro convidado a romper com a orquestra. Antes dele, a pianista Cristina Ortiz, escalada para tocar na série Turmalina, no próximo dia 30, obras de Mozart, Brahms e Liszt, e nos Concertos da Juventude, dia 1 de maio, declarou apoio aos músicos e desistiu de participar. O maestro Roberto Tibiriçá, que regeria os dois concertos de Cristina, também comunicou sua desistência.

- Acho que eles vão puxar mais um monte de gente - declarou Luzer Machtyngier, presidente da comissão de músicos da OSB.
Até a tarde desta segunda-feira, de acordo com Luzer, dos 44 insurgentes que não compareceram à prova de avaliação convocada pelo maestro Roberto Minczuk, estopim da crise, 32 haviam sido demitidos. Dos restantes, seis apresentaram atestados médicos e foram convocados para uma segunda chamada nesta quarta-feira; dois, idosos, estão negociando sua saída; e um sofreu um infarto e está hospitalizado.

O jornalista e crítico de música clássica inglês Norman Lebecht, autor dos livros "Quem matou a música clássica?" e "O mito do maestro", que vem relatando a crise da OSB em seu blog " Slipped Disc ", escreveu: "A orquestra está agora oficialmente em zona de guerra. Estrangeiros devem ser alertados para ficarem afastados."

Procurada, a Fundação OSB disse que não tem nada a declarar sobre as demissões e que o assunto está sendo tratado internamente. A respeito do boicote dos músicos convidados, a instituição disse estar em contato com eles.
(O Globo - Segundo Caderno -  4.4.2011)