quarta-feira, 13 de abril de 2011

O Globo - Segundo Caderno

Um amargo regresso

Astro da ópera e da Broadway, o brasileiro Paulo Szot diz que não pisa no Municipal de São Paulo, critica OSB e vê poucas chances de cantar no país

Plantão | Publicada em 12/04/2011 às 00h21m
Luiz Fernando Vianna


"- Não faz sentido chamar para novos testes músicos que estão há muito tempo na orquestra. É surreal. E as audições para contratar músicos estrangeiros são um desestímulo aos nacionais. Para que as novas gerações vão estudar, então? - pergunta. "


RIO - Astro internacional da ópera e vencedor em 2008 do prêmio Tony por sua atuação em "South Pacific", na Broadway, o barítono Paulo Szot recusou compromissos e batalhou muito para, após três anos, conseguir dois meses de férias para rever família e amigos no Brasil. Mas não pôde relaxar completamente.


Viu seu irmão, com 17 anos de casa, ser demitido com vários outros colegas do Coral Paulistano, vinculado ao Teatro Municipal de São Paulo; está acompanhando a grande crise da Orquestra Sinfônica Brasileira (OSB), com a qual já cantou; e constatou que o panorama da ópera do país continua pouco propício para que ele volte a cantar aqui.

O diretor do Municipal paulistano, Abel Rocha, lhe propôs que apresentasse no teatro "O nariz", ópera de Shostakovich que ele estreou em janeiro de 2010 em Nova York, tornando-se o primeiro cantor brasileiro a se apresentar no legendário Metropolitan Opera House (Bidu Sayão foi a primeira cantora, em 1937). Mas o convite ocorreu simultaneamente à demissão de Jan Szot, em março, pelo regente Tiago Pinheiro.

- Enquanto esse senhor (Pinheiro) estiver no teatro, eu não piso lá. É algo pessoal mesmo, mas me sinto no direito de ter essa atitude. Meu irmão é melhor no solfejo do que eu, poderia estar em qualquer coral do mundo, a demissão foi injusta. E outros foram demitidos porque o maestro quer mudar o perfil de um coral que não pertence a ele, mas à cidade - afirma Szot (pronuncia-se xót), de 41 anos.

O GLOBO pediu uma resposta ao Municipal, mas a direção não comentou o assunto até o fechamento desta edição. O barítono também não se diz satisfeito com as 32 demissões de músicos realizadas pela direção da OSB e pelo regente Roberto Minczuk, idealizador das avaliações individuais que revoltaram integrantes da orquestra.

- Não faz sentido chamar para novos testes músicos que estão há muito tempo na orquestra. É surreal. E as audições para contratar músicos estrangeiros são um desestímulo aos nacionais. Para que as novas gerações vão estudar, então? - pergunta.

Empurrão para o exterior
Szot começou a fazer testes no exterior em 2000, depois de, segundo conta, enfrentar muitos cancelamentos de óperas e temer pela sua subsistência, pois largara o emprego no Municipal de São Paulo para tentar a carreira solo. Observando a situação hoje, diz que nada mudou, o que o leva a estimular colegas a também tentarem o exterior, além de descrer de que possa participar de uma produção nacional:

continua..