terça-feira, 5 de abril de 2011

  por Ricardo Prado |

A crise na OSB - uma questão de escolhas

 

Acompanho a OSB desde menino como ouvinte, como estudante, como regente, como carioca;  e é inaceitável ver a demissão de tantos de seus melhores músicos. Nem sei quantas vezes vi a orquestra em crise. Muitos devem se lembrar das fotos, estampadas nos jornais, de músicos sentados nas calçadas próximas à Sala Cecília Meireles. Agora, com recursos consistentes, a OSB vive mais uma crise, talvez a mais grave.

O confronto entre o seu regente titular e diretor artístico, os gestores da Fundação OSB e os seus instrumentistas não é novo e devem ser remotas as chances de que cheguem a um entendimento razoável. Me parece que estão todos errados, mas há gradações distintas e, principalmente, há motivações distintas.
Muito já foi dito sobre o tema por importantes músicos e instituições, mas o Clube do Maestro precisa tentar contribuir, se possível, para o esclarecimento dos seus leitores. Para isso, vamos pensar em cada uma das partes envolvidas.

Os instrumentistas

Eles têm uma história de luta pela OSB que precisa ser respeitada como um patrimônio e como um exemplo. Tocaram em condições precárias por anos, até mesmo com salários atrasados.
Mas eles sabem, melhor do que ninguém, que há instrumentistas que não atendem – ou não atendem mais – às exigências de uma orquestra que precisa aprimorar-se, sempre, e que nunca teve as possibilidades atuais de realizar esse sonho que é de todos os envolvidos, mas que é, principalmente, uma responsabilidade deles.
Comissões de instrumentistas estão consagradas pelo mundo todo, mas deve partir delas, antes que de qualquer outro, a exigência de padrões técnicos, artísticos e profissionais dos músicos. Elas deveriam ter um compromisso – soberano e desafiador – de nunca permitir que um mau instrumentista precise ser retirado por um regente. Já que as orquestras estrangeiras têm sido sempre lembradas como exemplo (frequentemente de forma equivocada), é assim que ocorre nas melhores: há muitos depoimentos de músicos da Filarmônica de Berlim sobre a pressão quase insuportável sofrida por parte dos colegas, especialmente os das comissões.
Também me parece importante não envolver instâncias governamentais. Precisamos avançar nos desafios da manutenção e gestão privada das nossas grandes orquestras. Todos deveríamos ter a ambição de não lançarmos mão de governos – nunca e para nada. Todas as crises em todas as orquestras brasileiras demonstram isso.

A Fundação OSB

Subordinação é uma categoria tão útil e eficiente para orquestras quanto é para casamentos. Chegar a ela é reconhecer que tudo o mais fracassou e sua proposição é ridícula. Basta tentarmos encontrar as respostas para poucas perguntas.

A primeira é: que gestor convocaria seus colaboradores para um exame depois de anos de trabalho conjunto?
A segunda é: que gestor, mesmo diante de crises graves, de greves prolongadas, até mesmo de “insubordinações”, demite a metade de seus quadros? Suas operações serão realizadas pela outra metade? Com qualidade?
A terceira é: que gestor confiaria o atendimento dos seus clientes aos seus estagiários?


O regente titular e diretor artístico

Aqui é preciso começar pelas perguntas, já que tem sido difícil compreender tecnicamente algumas das suas postulações.

A primeira é: não foi possível reconhecer, ao longo de seis anos, os instrumentistas que não correspondem técnica, artística e profissionalmente às exigências de qualidade da OSB?
A segunda é: não foi possível substituir os instrumentistas que não correspondem aos padrões de excelência que todos esperamos que orientem a OSB como um processo cotidiano, permanente?
A terceira é: seria possível realizar exames individuais em músicos profissionais em outras tradicionais orquestras em atividade permanente e continuada?
Por fim, me parece que é necessário reconhecer ambições despropositadas na origem dessa crise. Mas a que mais preocupa é a que inverte dois termos fundamentais: até podemos imaginar lançar mão do poder para atender à música; mas é inaceitável usar a música para atender ao poder.

Essa é a lição que Stravinsky e Ramuz nos deixaram com a bela História do Soldado: não se serve a dois senhores. Quando o soldado Joseph encontra o diabo no seu caminho para casa, precisa escolher: se quer continuar a tocar o seu violino ou se prefere o livro que, antecipando o futuro, lhe trará toda a riqueza que desejar.
O diabo não está na beira de um caminho qualquer, mas dentro de cada um de todos nós. Nenhum maestro pode esquecer-se destes versos que estão naquela obra prima: uma felicidade é toda a felicidade; duas, é como se elas já não existissem.
E a felicidade não é o poder.