sexta-feira, 6 de maio de 2011

Aspásia: "OSB tem que sair da situação de constrangimento em que se encontra"

Em discurso no plenário da ALERJ, a deputada Aspásia defendeu a substituição do maestro Roberto Minczuk, da OSB, já que ele "não soube conduzir o difícil processo de liderar uma orquestra como a nossa sinfônica".


"Sr. Presidente, Srs. Deputados presentes, desejo me pronunciar neste momento sobre um tema que vem abalando a nossa cidade, o nosso estado. É sobre a situação em que se encontra a Orquestra Sinfônica Brasileira. Hoje nós tivemos nesta Casa uma audiência pública, brilhantemente conduzida pelo Deputado Robson Leite, e eu, como membro da Comissão de Cultura, como ex-Secretária de Cultura do Estado do Rio de Janeiro, desejo me pronunciar sobre o assunto porque o considero de extrema importância e nós temos que dar uma solução para o problema.

"O que nós vimos agora é uma situação de sublevação. Os músicos estão revoltados,  com razão; a sociedade carioca e brasileira está revoltada; toda a classe musical está revoltada com a situação que se criou para esses músicos,"


O que nós vimos é realmente estarrecedor porque a Orquestra Sinfônica Brasileira passou décadas e décadas, até recentemente, sofrendo de um mal que parecia incurável, que era a falta de recursos. Inclusive fez trabalhos com ONGs, muito meritório; procurando parcerias, mas que nada resolveu o problema da orquestra. A Cidade da Música foi uma tentativa de resolver esse problema porque, na Cidade da Música, a única coisa que estava clara no funcionamento daquele gigante, lá abandonado, era justamente abrigar a Orquestra Sinfônica Brasileira.

"Então, apareceu o dinheiro. E apareceu em grandes proporções. Mas, em vez de o dinheiro resolver o problema, parece que o dinheiro criou mais problemas."


Eis que surgem recursos vindos de empresa privada, surge o apoio do BNDES, então eu disse comigo mesma: “Agora as coisas vão começar a melhorar”. E por que estou tão preocupada com essa situação inicial da Orquestra Sinfônica Brasileira? É porque o papel que a Orquestra Sinfônica Brasileira exerceu em nosso país, durante muitos e muitos anos, está sendo ocupado hoje pela orquestra que atua no Teatro de São Paulo.

Essa orquestra, criada há uns quinze anos, é considerada hoje uma das melhores do mundo, de certa maneira deslocou para São Paulo o espaço de liderança que a Orquestra Sinfônica Brasileira tinha. Essa é a realidade. Eu cito outros exemplos, não apenas da Orquestra Sinfônica, mas, por exemplo, o fato de que hoje grandes teatrólogos, grandes nomes do teatro estão fazendo a estreia de suas peças em São Paulo, mesmo quando essas peças são concebidas e escritas no Rio de Janeiro. Por quê? Porque São Paulo está oferecendo muito melhores condições de trabalho para a classe cultural do que o Rio de Janeiro.


"O que queremos – foi esta, um pouco, a direção que a audiência pública tomou – é, de certa maneira, substituir esse maestro que, embora tenha méritos, seja um jovem muito talentoso e competente, não soube conduzir o difícil processo de liderar uma orquestra como a Sinfônica Brasileira."


Então, apareceu o dinheiro. E apareceu em grandes proporções. Mas, em vez de o dinheiro resolver o problema, parece que o dinheiro criou mais problemas. E agora nós vemos aí uma situação completamente aberrante - praticamente não existe igual no mundo -, que é uma avaliação feita de maneira estranha, um pouco secreta, improvisada, que simplesmente desmonta a orquestra pois tira metade dos seus músicos de maneira súbita e sem nenhum critério que mereça respeito. O maestro Roberto Minczuk vem cometendo um erro muito grave, a meu ver, que é o fato de ser ele maestro da Orquestra Sinfônica Brasileira, de ter sido diretor artístico do Theatro Municipal e ainda regente de uma orquestra no Canadá. Vamos convir que, por mais talento que ele tenha, é impossível um ser humano dar conta de três cargos dessa natureza, não é razoável. Ele recebeu conselhos de pessoas competentes no sentido de que não cometesse o desatino de estar em três lugares ao mesmo tempo. Apesar de tudo isso, ele insistiu nesse caminho. Embora seu salário seja extremamente elevado, não há o que censurar. Um grande maestro hoje tem que ganhar, realmente, muito bem, senão, ele não cumpre o seu trabalho, não exerce a sua função.

O que nós vimos agora é uma situação de sublevação. Os músicos estão revoltados, com razão; a sociedade carioca e brasileira está revoltada; toda a classe musical está revoltada com a situação que se criou para esses músicos, com o impasse de se abrir concurso internacional em grandes cidades do mundo para preencher vagas numa orquestra que atua no Brasil e na Cidade do Rio de Janeiro.

O que queremos – foi esta, um pouco, a direção que a audiência pública tomou – é, de certa maneira, substituir esse maestro que, embora tenha méritos, seja um jovem muito talentoso e competente, não soube conduzir o difícil processo de liderar uma orquestra como a Sinfônica Brasileira. Eu acho que há uma situação de profunda revolta. A liderança do maestro foi gravemente afetada e o que se pede é que os financiadores e patrocinadores tenham juízo e que o conselho, que constitui realmente o corpo de direção da orquestra, reexamine a questão, inclusive o seu presidente, para que se possa sair dessa situação de constrangimento em que a orquestra e o Rio de Janeiro estão mergulhados."