quarta-feira, 18 de maio de 2011

Insistência

Por Luis Carlos Justi
18 de maio de 2011

No que se refere ao “imbroglio” OSB, parece que, apesar das evidências, a elite dominante da FOSB resolveu não ouvir as vozes discordantes, seja por não considerá-las dotadas de razão, seja porque as razões dessas vozes não se aplicam à elite dominante da FOSB.
O Senhor Maestro (referendado política e financeiramente por seus iguais – economistas, políticos, banqueiros e, naturalmente, advogados) defende uma orquestra para uma elite. O que define essa elite? Seria cultura ou dinheiro? Quando as vozes discordantes são dos artistas de nível inconteste já citados amplamente por aí, solistas internacionais, músicos nacionais e estrangeiros, praticamente todas as orquestras brasileiras e muitas internacionais, além de alguns políticos preocupados com as verbas públicas via BNDES e outras (pessoalmente penso que todas as verbas levadas à FOSB são públicas, mesmo as privadas, já que derivam do não pagamento de impostos via leis de incentivos fiscais, a menos que sejam doações) são desconsideradas, há que se pensar o que leva a elite dominante da FOSB a tomar tal atitude. Fico pensando se não é justamente a auto consideração como “elite”. Como dito acima, fica a pergunta se elite intelectual ou financeira.

A FOSB, via seu “ditador” artístico, exclui em seus procedimentos todo o povo, na medida em que exclui os músicos, os artistas e parte dos políticos. Se os músicos brasileiros, em sua maioria, que estudaram e estudam, se prepararam e continuam se aprimorando no dia a dia da orquestra, não têm as condições de excelência musical exigidas pelo Sr Maestro para realizar as altas interpretações de obras européias por ele desejadas, por que o povo comum, maioria do público nos concertos teria condições de usufruir de tão sofisticada arte?

Esquece o Sr Maestro que os músicos vêm do povo – aliás ele também veio, mas se esqueceu quando ascendeu à elite financeira brasileira – e que o povo deveria ser a finalidade de toda a arte. O Beethoven que ele pretende executar com sua orquestra perfeita (“como os alemães”), criou uma de suas obras primas em cima do texto de Schiller que diz “Alle Menschen werden Brüder” – todos os homens serão irmãos.

O engano deste grupo arrogante, liderado pela pretensa defesa da excelência na arte, assessorado pela economia que enxerga números onde há pessoas, está justamente em não querer reconhecer a humanidade da arte. Os alemães não tocam Beethoven à sua maneira somente pelo seu alto nível técnico, sua disciplina e mais o que seja, mas porque essa música faz parte de sua cultura há séculos. Não obstante, as interpretações japonesas, coreanas ou brasileiras do mesmo Beethoven, trariam uma visão diferente e diferenciada, por influência de suas culturas (culturas essas não piores, como querem alguns, somente diferentes) que não deve ser negligenciada, pois essa abrangência é intrínseca à própria natureza da arte musical. A cultura européia é tão importante para nós como a nossa própria. Não mais importante! Ignorar isso é se autocolonizar!

Pretende o Sr Maestro ser uma reedição do alemão Kurt Masur? Não será nunca! Não somente por limitações próprias, mas porque tal coisa é impossível, por definição. Um arremedo, no entanto, é perfeitamente alcançável. Já se o Sr Maestro se esforçar por uma interpretação própria, fruto de sua vida e cultura de brasileiro – porque não se engane o Sr Maestro, embora talvez não goste, o Sr nasceu no Brasil! Não, não se preocupe, disso não vamos acusá-lo, afinal o Sr não tem culpa por ter nascido aqui – certamente conseguiria uma versão própria valiosa. Bom, para isso o Sr precisaria, naturalmente, dos seus músicos. E melhor ainda se fossem brasileiros.

O Sr Maestro e sua “entourage” pregam a filosofia do “apartheid”. Em vez de simplesmente replicarem a cultura européia, melhor fariam em estimular a criatividade na experiência sensorial da interpretação musical. Isso é da essência da música! Em vez disso, e com um só golpe, destroem não somente uma orquestra e sua sonoridade, seu âmago e sua maneira de ser (para o bem e para o mal), como, na rabeira deste ato de violência vem a pregação aos jovens da OSBJ da degradação ética, vem o desestímulo à liberdade, ao estudo e a almejar um lugar numa orquestra brasileira.

Sou o maior incentivador dos meus alunos para que estudem fora do Brasil. Não para que alcancem um nível de excelência oboística, mas para que, conhecendo outras culturas passem a conhecer e a valorizar mais a própria. Fenômeno que aconteceu comigo, mas, admito, não acontece com todos. Alguns se encantam de tal forma com a “perfeição” européia ou americana que “viram” americanos ou europeus. Não o serão, jamais. Somente arremedos! Poderiam ser excelentes brasileiros, conscientes do valor de um povo único, bom, musical, culto de sua cultura valiosa, diversa e admirada por todos os americanos e europeus que aqui vêm.

Que lástima! A elite financeira brasileira é burra, inculta, pernóstica e preconceituosa. E pior, prega e pratica, sim, o “apartheid”.