terça-feira, 7 de junho de 2011

Folha Carioca

A caminho do concerto da OSB

Músicos da OSB, heróis da minha infância


 MEMÓRIA
23 Abril 2011




Maria Luiza de Andrade

Aos quatro anos de idade me apaixonei pela Orquestra Sinfônica Brasileira assistindo, nas manhãs de domingo, aos Concertos para a Juventude, iniciativa do inesquecível Eleazar de Carvalho. Meu pai, oficial de Marinha, contava a história do regente, que começara sua carreira musical tocando tuba na Banda dos Fuzileiros Navais. Parecia conto de fada!

Na saída do Theatro Municipal, eu observava os músicos se dirigindo para os pontos de ônibus com seus instrumentos a tiracolo. Papai chamava minha atenção para seus ternos surrados e os sapatos gastos: “Esses músicos, minha filha, são heróis; recebem salários aviltantes, mas não desertam da vocação. Infeliz o país que trata assim os seus músicos, a voz da sua alma!”

Quando íamos aos bastidores cumprimentar o Maestro Eleazar, ele me chamava pelo nome e indagava: “Então, Maria Luiza, já sabe solfejar?” Fico pensando se não foi esse incentivo que me levou a ingressar na Associação de Canto Coral, sob a direção de sua fundadora Cleofe Person de Matos. A ACC, em conjunto com a OSB, promoveu concertos memoráveis sob a regência dos maiores regentes nacionais e estrangeiros: Karl Richter, Strawinski, Victor Tevah, Jacques Pernoo e tantos outros. Cleofe e o regente francês Jacques Pernoo se juntaram para promover as primeiras audições de obras notáveis do repertório coral-sinfônico, sempre em conjunto com a OSB, transformando os anos sessenta na década de ouro do Theatro Municipal. Com Pernoo, vieram intérpretes da Ópera de Paris e da Comédie Française (para os papéis falados) e cenógrafo para montar os oratórios “Joana d’Arc na Fogueira”, “O Rei David” (Honegger) e “O martírio de São Sebastião” (Debussy). O Maestro Pernoo e Henri Doublier (ator) voltaram ao Brasil seguidamente. Com eles mantive contato enquanto viveram.

Durante os quase vinte anos em que atuei na Associação de Canto Coral aprendi a respeitar ainda mais os músicos da OSB. Ensaiávamos exaustivamente, coro e orquestra, preparando-nos para a chegada dos regentes convidados. Dos ensaios gerais guardo os melhores momentos da minha vida. 

Na década de 60, já formada e trabalhando em O GLOBO, obtive bolsa de estudo do governo francês para o Centro de Formação de Jornalistas, em Paris. De volta ao Brasil, propus a Roberto Marinho que promovêssemos, a exemplo da Europa, concertos ao ar livre para levar a música erudita até o povo. A ideia foi encaminhada ao Departamento de Promoções, dirigido por Péricles de Barros, que batizou a série de concertos populares com o nome de Projeto Aquarius. O Maestro Isaac Karabtchevski encabeçou o Projeto, à frente da OSB, e o sucesso foi estrondoso, reunindo milhares de pessoas a cada apresentação. 

Hoje, a situação financeira dos profissionais da orquestra mudou, os salários aviltantes ficaram no passado, o país amadureceu, a música clássica conquista um público cada vez maior, mais jovem e mais interessado. Os clubes de música se multiplicam pelos bairros, reunindo grupos para assistirem palestras e concertos em DVDs.

A atual crise que atinge a nossa OSB pode acarretar a morte da orquestra. Vem de longe a oposição dos músicos à liderança do atual titular. A “avaliação de desempenho” foi a gota d’água. Músicos do Brasil e das orquestras estrangeiras estão solidários com os colegas brasileiros. E sugerem: por que não submeter o maestro à avaliação de desempenho? E, em lugar de uma demissão em massa, será que uma única demissão não resolveria o problema?

Volto à infância e à “missa dominical” no Theatro Municipal: Bach, Beethoven, Brahms, experiência de transcendência, descoberta da dimensão espiritual da vida...

Obrigada, músicos da OSB. Continuem lutando. 

Thomas Keating, monge trapista e mestre de Meditação, dá uma orientação segura: “Suponho que uma das grandes proteções da migração seja voar em bandos”.

Permaneçamos unidos.