quarta-feira, 27 de julho de 2011

O choro da plateia



quarta, 27 de julho de 2011 às 23:25
 
A última nota da 9a Sinfonia de Beethoven soou no Teatro Municipal já deixando saudades. O concerto que encerrou a temporada 2010 da OSB coroou as comemorações dos seus 70 anos. O público estava encantado, apaixonado pela mais tradicional orquestra brasileira e confiante na sua diretoria e maestro. Roberto Minczuk tinha fama de regente carrasco, mas diante das magníficas performances que se sucederam ao longo do ano, quem poderia discordar do rumo da OSB?

Logo no início de 2011 esse caso de amor começou a desandar. A demora na divulgação da programação, enquanto outras orquestras já estavam vendendo suas séries, gerou uma certa ansiedade nos assinantes que estavam ávidos por mais espetáculos de alto nível. Quando o anúncio finalmente saiu, outro baque: a orquestra principal só retornaria aos palcos em agosto! Enquanto isso, a OSBJ seria responsável pela abertura da temporada.

Apesar do grande respeito pelo programa didático da FOSB, não era isso que o público queria. Ao buscar informações, o assinante esbarrava em um SAC lento e desatencioso, com explicações vagas como “foi uma escolha da direção para dar mais espaço aos jovens”. Nada foi dito sobre a falta de espaço para os músicos profissionais. Enquanto isso, crescia um burburinho nas redes sociais sobre umas avaliações de desempenho, audições no exterior e a insatisfação dos músicos com a direção e o maestro.

O boicote das audições por parte dos músicos e a consequente demissão por justa causa de metade do corpo orquestral foram muito noticiados e discutidos na mídia e na internet. Para quem acompanhou a temporada 2010, no entanto, ficou a sensação de que mexeram no time que estava ganhando e a OSB acabou sendo desclassificada da Copa do Mundo. Até hoje, muitos dos argumentos utilizados para justificar as polêmicas avaliações de desempenho continuam não convencendo.

Essas audições perante uma banca examinadora são praxe para contratação e não para avaliação contínua. Seria o equivalente a submeter universitários a vestibulares periódicos para ver se realmente merecem ocupar suas cadeiras. A banca, que incluía um engenheiro de som, deveria criticar o desempenho dos músicos. Será que as lideranças artísticas (maestro, maestro assistente, líderes de naipe, etc...) em contato diário com esses profissionais não fariam uma avaliação mais rica e criteriosa? O regente titular tinha poder de veto sobre qualquer decisão da banca. Para que chamar a banca se uma única pessoa detém plenos poderes? Músicos, regentes, compositores, professores de música e produtores do mundo inteiro se manifestaram, apoiando a decisão de boicote dos músicos e afirmando a indevida aplicação desse método. Mesmo assim, a direção teimou e o resultado foi desastroso.

Diante da falta de argumentos técnicos para justificar suas ações, a FOSB começou a veicular artigos e entrevistas desclassificando seus ex-integrantes, alegando problemas de relacionamento, de disciplina, de dedicação e até de afinação. Talvez por falta do ouvido absoluto do regente titular, essas são justificativas difíceis de digerir. Principalmente porque a própria diretoria artística, poucos meses antes, estava exaltando esses mesmos elementos. Ademais, caso essas divergências realmente existissem, seria mais eficiente eliminar aqueles funcionários problemáticos e/ou insatisfatórios através de demissões individuais respaldadas pela legislação trabalhista.

A demissão por justa causa de dezenas dos músicos mais emblemáticos do Rio de Janeiro foi um dos temperos mais amargos de todo esse caso. A falta de sensibilidade, gentileza, consideração e respeito com o qual esses artistas foram tratados foi especialmente chocante devido ao caráter artístico da instituição. O público jamais poderia imaginar que a mesma FOSB que lhe proporcionou tanto deleite em 2010 poderia lhe trazer tanto desgosto em 2011. Músicos com mais de trinta anos de carreira na orquestra foram descartados. Jovens talentos que deveriam ser incentivados tiveram suas carreiras interrompidas de forma grotesca e sem nenhum critério artístico. Terá sido a insubordinação momentânea desses profissionais assim tão grave? Será que seu histórico de empenho e sacrifício de nada conta para a administração da fundação?

No auge da crise, uma das características mais marcantes da FOSB foi a falta de comunicação com os músicos demitidos, com o público, com autoridades públicas. O SAC alegava que não havia nada de anormal na situação da orquestra e que a renovação do corpo artístico era comum. A temporada continuava conforme planejada, com os concertos da OSBJ e as audições em Londres, Nova Iorque e Rio de Janeiro logo preencheriam as lacunas com profissionais ainda mais gabaritados, atraídos por salários de primeiro mundo. Porém não foi bem assim que os fatos se sucederam...

O maestro Roberto Minczuk tomou uma das maiores vaias da história da música no Rio de Janeiro. Desde a chuva de garrafas no show do Carlinhos Brown durante o Rock in Rio 3 não se via uma plateia tão hostil. Os jovens se recusaram a substituir seus professores. Diversos solistas que seriam as principais atrações das séries da temporada cancelaram suas participações diante da postura da fundação com seu corpo orquestral. A venda de ingressos foi suspensa. Concertos foram cancelados, incluindo apresentações exclusivas para patrocinadores. O compositor Marlos Nobre proibiu a OSB de executar suas obras enquanto durasse esse impasse. As audições internacionais foram um fracasso (não adianta os representantes da FOSB insistirem do contrário, 150 interessados em três países é muito pouco) e a orquestra continua incompleta às vésperas da retomada das suas atividades.

Na tentativa de retornar à normalidade e acalmar os exaltados ânimos, a fundação nomeou novos diretores artísticos que foram apresentados ao público em um concerto fechado para convidados. Neste evento, anunciado como um concerto de música de câmara (a única atividade que restou para os músicos da OSB durante todo esse período), a plateia foi surpreendida pela apresentação da Orquestra Sinfônica Brasileira na íntegra. Ou melhor, semi-íntegra. Com pouco mais de 40 integrantes, a nova OSB não encheu o palco do Municipal. Alguns dos membros conhecidos da orquestra pareciam abatidos, outros passavam orgulho e felicidade por estar finalmente se apresentando como orquestra sinfônica. As caras novas, na sua maioria muito jovens, não transmitiam nada. Afinal, a criação de um vínculo entre o público e os músicos de uma orquestra é um processo lento, a não ser que os artistas sejam muito expressivos. Não era o caso. A execução da 7ª sinfonia de Beethoven que se seguiu convenceu no quesito técnico, mas ficou tão longe daquela 9ª do dezembro anterior...

Ao que parece, a alma da OSB foi mesmo quebrada ou talvez tenha sido demitida. Nos últimos meses os músicos considerados acomodados, problemáticos e preguiçosos pela fundação correram atrás para agradar o seu público. Contando com o apoio de colegas de outras orquestras (com destaque especial para a Petrobras Sinfônica) e profissionais de todos os ramos, conseguiram organizar uma série de música de câmara e dois dos concertos sinfônicos mais emocionantes de todos os tempos. O primeiro contou com duas participações mais do que especiais do maestro Osvaldo Colarusso e da pianista Cristina Ortiz. O calor que tomou conta da Escola de Música da UFRJ foi ignorado pela plateia que chorava copiosamente ao som da Bachiana no. 4 de Heitor Villa Lobos. Já o concerto para piano no. 4 de Beethoven provavelmente nunca fora executado com tamanha paixão. O segundo evento foi o show com o Edu Lobo realizado no Teatro Oi Casa Grande. A mobilização para aquela noite foi tão grande que envolveu desde as empresas de catering e transporte, que não cobraram pelos seus serviços, até o ECAD que bancou ele próprio os direitos autorais de parte do repertório. Os maravilhosos arranjos sinfônicos das canções desse ilustre artista encantaram todos os presentes e energia que emanava do palco tocou o coração de um por um até o último choro do primeiro violino.

O momento é de conversa e negociação. Processos estão se desenrolando nos bastidores dos dois lados da moeda OSB. O futuro continua nebuloso tanto para os músicos quanto para a fundação que ainda está sendo questionada sobre a aplicação dos recursos dos patrocínios durantes esses meses de paralisação. O público fica na expectativa de um acordo para que a OSB volte a brilhar e a emocionar com a união daqueles artistas que representam seu passado, seu presente e seu futuro.