segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Opinião e Notícia


 

OSB: ainda e sempre desafios

A orquestra de câmara OSB Ópera & Repertório estreia com vontade de renascimento e um caminho a percorrer.
Por Clóvis Marques

 Música Clássica

19/12/2011 | Enviar | Imprimir | Comentários: 2 | A A A
O Rio de Janeiro e eventualmente o público brasileiro podem ter ganhado um belo presente com o surgimento da OSB Ópera & Repertório, a formação de 37 músicos que, afastados na crise que convulsionou a Orquestra Sinfônica Brasileira este ano, foram reintegrados num conjunto paralelo para explorar o repertório de câmara, incluindo óperas. Solução trabalhista que ainda terá de ser justificada artisticamente.

A OSB Ópera & Repertório estreou este fim de semana com três apresentações no Rio. Assisti na sexta-feira no Centro Cultural Banco do Brasil ao concerto com música para cordas regido e solado pelo violinista Daniel Guedes, ao qual se seguiram no sábado um apanhado de obras para sopros sob a condução de Marcelo Jardim e, no domingo, na Candelária, uma seleção de peças corais com o concurso do Coro de Crianças da OSB e do Coro Calíope, sob a regência de Carlos Moreno.

Foi bom voltar a ver no palco profissionais que são esteios da nossa vida musical, como o violinista Michel Bessler e o violoncelista David Chew, para citar apenas os spallas, e contemplar a possibilidade de temporadas enriquecidas por tanta música para orquestra de câmara que deixa de ser ouvida numa cidade que não disponha de um conjunto permanente para isto.

O concerto da sexta-feira foi conduzido por Daniel Guedes com uma energia em que ressaltavam o ânimo vigoroso e a expressividade ensolarada. O que tinha tudo a ver com obras como o Concerto de Natal de Corelli – no qual os solos concertantes de Bessler lembraram que perderíamos um belo músico se seu afastamento tivesse sido efetivado – e o animado Concerto para violino e orquestra de cordas nº 4 de Radamés Gnattali, regido e solado com brilhantismo por Guedes, também responsável pelas cadências.
Guedes pode aperfeiçoar a estabilidade de sua entonação e talvez nuançar mais, especialmente na dinâmica. Mas com sua sonoridade cheia e vibrante foi bom, por exemplo, descobrir o raro e despreocupado Rondò em lá maior de um Schubert de 19 anos.


Uma orquestra requer liderança musical

 

O que a OSB vai fazer com sua nova formação de câmara é agora a grande questão. O principal será dotar o conjunto de um líder musical. Não existe formação orquestral que prospere e alcance a excelência sem um maestro que pode até se articular com uma direção artística separada e alternar com regentes convidados, mas vai moldar a massa sonora e conferir personalidade ao conjunto.

São “detalhes” fundamentais em nossa era de pletora da oferta e acesso eletrônico ao melhor. Mesmo ressalvados os percalços de um ano conturbado, o concerto de estreia da OSB Ópera & Repertório mostrou carências de que boa parte do público do Rio talvez não se dê conta – mas é às camadas mais exigentes que uma formação artística deve se dirigir como que por default. Ou então não é a rigor de arte que estamos falando.

Essas carências poderiam ser resumidas no binômio sofisticação/informação. O novo conjunto tocou com garra e provavelmente o melhor talento de cada músico, e não foi ajudado pela acústica avara do CCBB, depois de ensaios num salão de clube que tampouco terá contribuído para o burilamento da sonoridade. Mas faltou, além de um trabalho mais apurado de refinamento e homogeneidade, aquele relevo que numa interpretação mostra esmero e sobretudo imaginação, na modelagem e na respiração da música – além de uma certa sintonia com l’air du temps.

A música barroca não precisa ser interpretada sempre com os recursos e o estilo “de época” adotados por tantos músicos ilustres nos últimos 50 anos, mas tampouco dá para ignorar que nos nossos ouvidos ela já soa empobrecida se for tocada sempre como o faziam Jean-François Paillard ou John Pritchard antes deles. Outro “detalhe”: o Concerto Grosso opus 6 nº 10 de Händel que abriu o programa da sexta-feira requer um baixo-contínuo que não estava presente.

Quem é que vai trabalhar esses “detalhes” com a OSB Ópera & Repertório? A Fundação OSB (o Rio de Janeiro, no fim das contas) quer fazer mais este investimento? Estarão os músicos da OSB Ópera & Repertório dispostos a enfrentar desafios e sacudir uma certa poeira de mediania que ainda empana o brilho da música?
Detalhes? Quando falo de públicos mais e menos exigentes, não estou dizendo nada de novo para homens como o maestro Roberto Minczuk, regente do corpo sinfônico maior da OSB, Fernando Bicudo e Pablo Castellar, novos diretores artísticos da(s) orquestra(s), e Eleazar de Carvalho Filho, presidente do conselho curador da Fundação OSB. Falo de coisas levadas a sério bem pertinho daqui, em São Paulo e Belo Horizonte, por exemplo… Não dá para fingir que a gente não sabe e que o razoavelmente satisfatório pode ser festejado.
Boas-vindas à OSB Ópera & Repertório!
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