segunda-feira, 21 de maio de 2012

"Orfeo ed Euridice”
Sucesso no Tom Jobim

orfeu-e-eurídice
Escrito por Marcus Góes em 20 mai 2012 nas áreas Crítica
 
Há  250 anos estreava em Viena “Oofeo ed Euridice”, de Glück (1714/1787), cantada em italiano com libreto de Romano di Calzabigi.
Não há pois ocasião mais propícia para que essa obra-prima e inovadora seja revivida em versão especial de concerto pela OSB Ópera & Repertório e jovens solistas da novíssima geração do canto lírico no Brasil.

No entanto, a ocasião é mais ainda de comemoração e festa porque assinala mais um dos reencontros do co-diretor artístico da OSB Fernando Bicudo com aquela que foi sua mais moderna, ousada e bonita produção de ópera, quando esteve à frente da Divisão de Ópera do Teatro Municipal do Rio de Janeiro nos anos 80. Em 1984, subia ao palco desse teatro esse mesmo ORFEO, em montagem toda baseada em efeitos de raios laser, até hoje na memória dos que a viram por sua beleza, teatralidade e valor musical. Naquela ocasião e com aqueles efeitos da tecnologia então em desenvolvimento, o teatro se tornou o que é: o mundo da ilusão e do sonho, no qual virgens mortas retornam para salvar seu amado da morte, pais assassinados voltam para dizer ao filho quem os matou e como foi que ocorreu o delito e Orfeo reencontra sua Euridice no mundo das sombras.

Agora, não tivemos raios laser, mas sim uma muito digna edição da obra em epígrafe, a começar pela inspirada, eficiente e estimulante regência de orquestra de Jesus Figueiredo.  Estimulante porque tudo soou dentro da variedade de estilos da ópera ,cujo autor a pretendia reformadora até no volume dos naipes, na afinação geral, na maneira de cantar das protagonistas, na economia ou excesso de virtuosismo e ornamentos. Aliás, vale aqui lembrar que o Orfeo de Glück é uma das óperas do repertório cuja partitura e libreto mais sofreram modificações, versões, cortes e acréscimos, escritos ou pelo próprio Glück ou por um grande número de compositores, entre os quais se salienta Berlioz.

O meiossoprano Luciana Costa e Silva, musicalíssima, teria estado em nível superlativo não fosse o volume pequeno demais em certas passagens. No cômputo geral, foi excelente sua atuação, proporcionando a todos um  “Che puro ciel” e um “Che faró” de alto teor musical e dramático.

O soprano Lívia Dias foi uma entusiasmante Euridice de luxo, de bela, possante e expressiva voz . Lívia é um dos mais significativos talentos das super-novas. Vale muitíssimo a pena descer ao mundo dos túmulos para encontrar uma tão excelente Euridice…

O soprano Daphne Boms, como Amor, apresentou-se quase na medida exata, voz límpida e convincente. O “quase” vai por conta também do pequeno volume em poucas passagens.
O coro esteve soberbo e foi, como tem sempre ocorrido ultimamente, uma das estrelas maiores do espetáculo.
Os solos de flauta não receberam o relevo enfático de “solo”, parecendo mais parte do todo orquestral.

ACH GOTT,VOM  HIMMEL SIEH DAREIN.
MARCUS GÓES – MAIO 2012

Marcus Góes
Musicólogo, crítico de música e dança e pesquisador. Tem livros publicados também no exterior. Considerado a maior autoridade mundial sobre Carlos Gomes.