terça-feira, 7 de agosto de 2012

MOVIMENTO.COM - Marcus Góes


O SONHO: OSB ÓPERA & REPERTÓRIO E CANTORES DO TMRJosb_or_movimento.com
Escrito por Marcus Góes em 7 ago 2012 nas áreas Crítica
 
Afinal de contas, crítico também é gente e se emociona como qualquer um.

A palavra mais própria para definir o que foi o concerto da OSB ÓPERA & REPERTÓRIO e cantores, no dia 06/08 no TMRJ, é “sonho”. É realmente um sonho ver e ouvir tantos cantores da nova geração reunidos em um só concerto, com a orquestra, sob a regência de Jésus Figueiredo em ótima forma, com ótimos cantores masculinos e principalmente com um quinteto excepcional de sopranos, em   atuações soberbas.

É muito pouco comum reunir nove cantores da nova geração em um só concerto, principalmente o  quinteto de sopranos composto por Loren Vandal, Juliana Franco, Lívia Dias, Paloma Lima e Marina Considera, todas fascinantemente no máximo do brilho, da musicalidade, da propriedade, do estilo e da beleza cênica e beleza “tout court”. “Je ne sais si je veille ou si je rêve encore.”, diria Werther.

O  barítono Leonardo Páscoa, em “Largo al factotum”, de “O barbeiro de Sevilha”, de Rossini, foi o que é: voz robusta, sólida, máscula, afinada, baritonal, de timbre agradável e de expressão cênica irrepreensível. Que mais se pode exigir de um barítono?

O baixo Pedro Olivero se apresentou em “La calunnia”, da mesma ópera. Voz também sólida e eficaz, bem aproveitada cenicamente. O muito jovem tenor Aníbal Mancini é um estilista e cantou muito bem a ária “Ecco ridente”, também de “O barbeiro de Sevilha” com extrema propriedade de “tenore di grazia”, voz bonita e afinada. Um jovem tenor do referido estilo, efetivo e capaz.

O tenor Jacques Rocha, que encerrou o programa, apresentou-se muito bem na pirotécnica ária “À mes amis”, de “A filha do regimento”, de Donizetti. Pirotecnia é com ele mesmo, e foi com prazer que o público ouviu todos aqueles dós superagudos.

O soprano Loren Vandal esteve admirável na cena “Regnava nel silenzio”, da “Lucia di Lamermoor”, de Donizetti. Voz ampla e de timbre por vezes mais escuro do que estamos acostumados a ouvir naquele trecho, esse fato tornou seu canto extremamente agradável, com os ornamentos e superagudos soberbamente refinados.

As palavras mais entusiásticas e entusiasmadas dos dicionários de música ou canto foram escritas para serem aplicadas ao soprano Lívia Dias. Na grande ária de “O pirata” de Bellini, Lívia excedeu, com voz própria, ora dramática, ora lírica, em um primor de alternações. A difícil peça parecia um brinquedo diante das habilidades e da beleza do canto de Lívia.

Mas muito mais, se mais houvesse ainda, ocorreu quando o soprano Paloma Lima cantou magníficamente  “Una voce poco fa”, do Barbeiro. Sua lindíssima voz de soprano lírico-ligeiro afrontou com inacreditável bravura as difíceis cadências, ornamentos e superagudos da peça, o que tornou sua atuação um verdadeiro primor.

O soprano Juliana Franco foi ponto altíssimo da noite de sonho. Cantando um trecho do final de “A filha do regimento”, de Donizetti, foi tudo que se pode querer de um soprano de seu registro ligeiro: canto elegantemente ligado, superagudos fáceis, timbre agradável, musicalidade, expressão. Mais um notável valor do canto lírico nacional a ser mais bem aproveitado.

O sonho  chegou a seu ponto de êxtase quando o maravilhoso e raro soprano Marina Considera cantou a cena “Casta Diva”, da “Norma”, de Bellini. Transfigurada na personagem, consseguiu a incomparável artista colocar lado a lado emoção e técnica na justa medida. Marina, que vi em versões reduzidas para canto e piano de “Norma” e “Maria Tudor”, de Gomes, é uma aparição, uma fulgurância na cena lírica mundial, a ser, como todos os seus colegas de concerto, aproveitada nos grandes palcos de ópera.

A orquestra esteve muito bem nas mãos de Jésus Figueiredo, tanto no acompanhamento dos cantores quanto nas aberturas do “Barbeiro de Sevilha”, “Norma” , “Guilherme Tell” e “A filha do regimento” que apresentou.

As observações acima não seguem a ordem do programa.
TÖNET,IHR PAUKEN !ERSCHALLET,TROMPETEN. BWV 214
MARCUS GÓES – AGOSTO 2012