quarta-feira, 12 de setembro de 2012

O GLOBO - Luiz Paulo Horta


UMA DIVA EM SEU AUGE

LUIZ PAULO HORTA
quarta-feira, 12/9/12 

Música
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Nossa raquítica temporada de ópera foi enriquecida, segunda-feira, com uma rara performance da "Aridne em Naxos", de Richard Strauss, com a presença estelar de Eliane Coelho no papel-título. Na versão concerto apresentada no Teatro Municipal, a primeira notícia boa foi a OSB "pequena", superiormente dirigida por Eugene Kohn. O som da orquestra traduzia perfeitamente as nuances dessa partitura de 1912, de um compositor que amava a ópera e a voz humana. Sobre esse tecido flexivel e expressivo, Eliane Coelho provou, mais uma vez, ser uma "diva" no auge da carreira aplaudida como só sabe apludir o público de ópera.

Essas mudanças de repertório são muito bem-vindas, num cenário dominado pela falta de imaginação. O Strauss de 1912 (nada a ver com o das valsas) é um mestre consumado, com um fascinante discurso musical que tanto remete (de longe)  Wagner como à Viena onde a valsa, de fato, é uma presença invasora.

Na dialética que opõe a trágica Ariadne a um personagem que é pura frivolidade, a Zerbineta de Juliana Franco mostrou bons dotes vocais. Mas este é um papel terrível, só acessível a cantoras excepcionais (me lembro de Kathleen Battle fazendo esse duo com Jessye Norman). Como Juliana não está nesse nível, suas notas altas eventualmente soavam duras, pouco musicais. Como o que aconteceu com o Baco de Juremir Vieira: bom material vocal, pedindo um controle mais refinado.

Havia uma comparsaria interessante, liderada pelo Arlequim de Ignacio de Nonno. Mas os grandes momentos, claro, perteceram a Eliane, capaz de dar ao personagem principal todo o seu contexto trágico. O delicioso, nesse magnífico Strauss, é que o trágico se vê forçado a dialogar com o cômico, num contexto quase surrealista.