domingo, 2 de setembro de 2012

O GLOBO - Segundo Caderno

Hora de afinar o discurso

Um ano após a maior crise de sua história, orquestra luta para equilibrar as finanças e unir a instituição

Mauro Ventura - Segundo Caderno 1/09/2012


A orquestra, que toca hoje no Municipal, faz audições para preencher vagas abertas em 2011
Foto: Cícero Rodrigues / Divulgação
OSB. A orquestra, que toca hoje no Municipal, faz audições para preencher vagas abertas em 2011

 A maior crise dos 70 anos de história da Orquestra Sinfônica Brasileira (OSB) chegava ao fim no dia 2 de setembro de 2011, com a assinatura de um acordo que reintegrava músicos demitidos e criava uma nova orquestra, a Ópera & Repertório (O&R). Com isso, hoje o público brasileiro tem à disposição dois corpos orquestrais: um grupo sinfônico, que toca esta noite no Teatro Municipal com o pianista canadense Jan Lisiecki (leia matéria com ele no link abaixo), e um conjunto menor, com foco no lírico e no repertório de câmera, que se apresenta dia 10, no mesmo palco, com a soprano Eliane Coelho e regência do americano Eugene Kohn.

Mas este ano de pacificação não significa que todos os problemas estejam resolvidos. A começar pela questão financeira. Com a entrada de dois novos patrocinadores, Santander e Carvalho Hosken, que se juntaram a Vale, BNDES e Prefeitura do Rio, o orçamento saltou de R$ 32 milhões para R$ 34 milhões. Só que as despesas cresceram, com a criação da nova orquestra e o aumento dos salários dos músicos.
— O ponto é fazer essa equação fechar para não perder a qualidade musical — diz Ricardo Levisky, há um mês e meio superintendente da Fundação OSB.

A saída para as dificuldades financeiras é “fechar torneiras em áreas que não a musical”.
— Cortamos eventos extras, como concertos em empresas. Coisas feitas por prestadores de serviços externos hoje são realizadas internamente. Estamos gastando menos com passagens aéreas, levando uma equipe menor de produção. Reduzimos gastos com mídia. Acredito que até fim do ano vamos equilibrar a situação.

Outro ponto em aberto são as vagas na OSB, criadas com a saída dos descontentes.
— Um bom número para uma orquestra sinfônica é entre 80 a 95 músicos. Temos hoje 71 na OSB. Nossa ideia é chegar a 95 até 2016.

A Fundação OSB fez audições de segunda a quarta-feira desta semana para contratar 14 novos músicos. Já para a O&R, que conta com apenas 36, não há previsão de aumento.
— A próxima temporada será feita com o corpo existente — diz Levisky.
— Temos carências imensas — diz o violinista Luzer Machtyngier, presidente da comissão de músicos da O&R. — São só nove violinos, entre primeiros e segundos. E não temos clarineta.

Ópera & Repertório. Corpo de músicos demitidos
  

O&R só tem garantia de trabalho até 2013
A crise na OSB começou em janeiro de 2011, com a decisão da fundação de fazer uma avaliação dos músicos. Insatisfeito com o processo, um grupo se rebelou.
— Nunca fomos contra uma avaliação de desempenho — diz Luzer. — Discordamos é que fosse feita numa prova de apenas meia hora, sem levar em conta outros critérios, como produtividade, assiduidade, relação com colegas.




 
Pivô da crise, o maestro Roberto Minczuk deixou de acumular as funções de diretor artístico e maestro, passando somente a reger.

— O que passamos em 2011 foi muito traumático. O que me motivou a seguir adiante e, ao lado dos músicos, oferecer belos concertos, foi única e exclusivamente a música — diz ele.
Como diretores artísticos, dividem hoje a função Fernando Bicudo e Pablo Castellar.
— Estamos conseguindo fazer duas temporadas incríveis — diz Bicudo. — O (regente americano) Lorin Maazel abriu a temporada da OSB. Para a O&R, montamos um repertório que andava esquecido e tem grande apelo popular. Vamos fazer a ópera “O pirata”, de Bellini, e fizemos “Griselda”, de Vivaldi, ambas em première no país. E se juntar as três orquestras (também a OSB Jovem) são 34 peças de compositores brasileiros, oito delas em primeira audição no Brasil.

Pelo acordo de 2011, os músicos da O&R têm garantia de trabalho até dia 31 de agosto de 2013. Levisky diz que é cedo para falar sobre o futuro da orquestra, que conta com instrumentistas listados entre os melhores do Brasil:
— Estou conversando com todo mundo. Esse cargo de superintendente acaba de ser criado, e meu trabalho é dialogar com patrocinadores, mantenedores, músicos, público.
A partir dessas conversas é que sairá uma decisão. Músicos da O&R questionam o fato de não serem aproveitados em concertos da OSB. Em vez de chamá-los, sem custos, são utilizados extras, o que aumenta as despesas.
— Temos três trombones, três trompetes e uma tuba que quase não têm trabalhado, porque se tocassem iam encobrir todo mundo — exemplifica Luzer.
Levisky diz que a razão é cautela:
— Do ponto de vista financeiro, é correto. O intercâmbio pode ser muito bem-vindo, mas tem que ser no momento certo. Vejo que ainda tem coisas delicadas. São artistas, e para tocar eles precisam estar bem emocionalmente.
Ele se refere às mágoas internas deixadas pela crise. Mas prefere não remoer o passado.
— O Rio precisa se unir pela instituição. Não é um Fla-Flu. Se nosso discurso não for muito focado no diálogo, no respeito e na qualidade, perderemos uma chance que não se repete.