domingo, 28 de outubro de 2012

 
28 de outubro de 2012
ALVARO SIVIERO
Música clássica decodificada

PABLO DE LEÓN: um spalla de spallas

http://blogs.estadao.com.br/alvaro-siviero/files/2012/10/Pablo-de-Le%C3%B3n-Carnegie-Hall.jpg

A foto acima, tirada durante um ensaio, provocou frisson no facebook: dezenas de comentários, “curtir” e compartilhamentos. Por que? É o que explico abaixo.

Em uma orquestra, cada um dos naipes de instrumentos (violoncelos, contrabaixos, trompas, violinos I, violinos II, etc) possui um chefe. Sim, uma orquestra é uma hierarquia. Este chefe de naipe é responsável pelo ajuste de sonoridade, pela coesão e até mesmo pelo bom relacionamento de seus integrantes, garantindo que boa música seja feita em seu “departamento”.  Houve casos, inclusive, em que chefes de naipe intercederam pela não demissão de um dos músicos sob seu comando. Fechando o modelo, surge também a figura do chefe dos chefes. É ele que vai chefiar toda a orquestra. Baseados em tradição musical de longa data, essa missão é confiada ao chefe dos violinos I e este receberá, por esta função, o nome de spalla (do italiano, ombro), devido ao fato de estar em uma posição que se encontra ao lado do ombro (esquerdo) do maestro.

A posição é cobiçada, talvez, mais por aqueles que enxergam neste serviço uma fonte de autopromoção e poder. Há spallas que conseguem destaque e convites, mais pela posição “política” que ocupam do que por outra coisa. Mas o spalla , independentemente das mazelas humanas, é o chefe de todos os chefes. Quando há alguma questão de cunho artístico ou administrativo que envolva toda a orquestra, é o spalla quem falará em nome dessa orquestra, funcionando como um fio condutor entre maestro e músicos.  A deferência a essa função, por sua importância, é incontestada: a própria orquestra em suas apresentações, a título de exemplo, permite que o spalla entre separadamente, após a entrada de todos os músicos, com aplausos exclusivos.

O spalla da orquestra acima é Pablo de León. E a orquestra acima – pasmem! – é a WOP – World Orchestra for Peace, formada somente por spallas, e detentora de um nível artístico de arrepiar, contendo em suas fileiras spallas de orquestras como a Filarmônica de Londres, Filarmônica de Viena, Orquestra de Paris, Israel, entre outras iconizadas. Isso mesmo: só feras! Pablo de León é o único spalla de uma orquestra brasileira chamado a participar do seleto e exigente grupo que faz música em promoção da paz. Violinista que pouco (ou nada) é comentado pela mídia, seu nome circula extensamente pela classe artística por seu prestígio profissional. Coube a ele ser, durante os concertos da WOP-2012 o spalla de spallas. Isso mesmo, foi Pablo de León quem comandou o grupo, sentando-se à frente do spalla da Orquestra de Paris (segunda cadeira) e à frente do spalla da Filarmônica de Viena (Rainer Kuchl, terceira cadeira, com Pablo na foto abaixo).



O reconhecimento crescente pelo trabalho deste violinista é inversamente proporcional ao deslumbramento imaturo que este prestígio poderia provocar. O sucesso parece não ter tomado conta dele. O conteúdo veiculado em uma entrevista concedida a este espaço revela um pouco do interior do músico (leia íntegra aqui).
Entrando em contato com Pablo, que retornará ao Brasil no próximo 31 de outubro, perguntei-lhe qual a emoção diante de uma situação de tamanho reconhecimento: ” Estrear no famoso palco do Carnegie Hall liderando um grupo formado pelos principais chefes de diversas orquestras do mundo é um privilégio para poucos. Confesso que ao entrar no palco senti uma grande responsabilidade e um enorme orgulho de representar o Brasil”. A apresentação ocorreu no último dia 19 de outubro, em NY, e no dia 21, no Symphony Center, em Chicago (foto abaixo), sob a regência de Valery Gergiev.

Em sua última edição, a Revista Veja destacou, em competente matéria assinada por Sérgio Martins, outro fato alentador: o violinista Luiz Filip (até então respeitado no restrito círculo artístico, mas igualmente desconhecido da mídia) conquista uma das cadeiras da lendária Filarmônica de Berlim. Um fato inédito, inusitado. Façanhas desta envergadura não acontecem com pó de pirilim-pim-pim. Estes artistas, já consagrados, merecem receber luz, visibilidade, mesmo que tardia. Fica a lição. Se o sol nasceu para todos – como diz o ditado – que um pouco de luz também incida sobre eles.