segunda-feira, 22 de outubro de 2012

ACORDES DE LACÍVIA E DESESPERO

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Escrito por Fabiano Gonçalves em 22 out 2012 nas áreas Crítica
 
A ópera Anjo Negro, de João Guilherme Ripper, com direção de André Heller-Lopes, tem estreia eletrizante no Rio de Janeiro.

As paredes do Parque Lage, palacete construído nos anos 1920 no Rio de Janeiro para o contralto Gabriella Besanzoni por seu marido Henrique Lage, acostumadas aos refinamentos do canto lírico, há tempos não acolhiam bemóis e sustenidos emitidos por vozes humanas. Na noite do dia 20 de outubro, o casarão foi cenário perfeito para a estreia carioca da ópera Anjo Negro, com música e libreto de João Guilherme Ripper, a partir da peça homônima de Nélson Rodrigues, cujo centenário de nascimento comemora-se em 2012.

Escrita em 1946, a peça de Nélson alcança uma grandiosidade trágica ao retratar o drama de Ismael, negro que não aceita sua raça, marido de Virgínia, mulher branca cujos filhos negros recém-nascidos sucessivamente morrem. Estupro, incesto, traição e volúpia em uma obra de tonalidades gregas transformam-se em matéria-prima essencial para um drama musical lírico. A tragédia rodrigueana, entretanto, está sempre a um passo do dramalhão piegas quando em mãos que não entendem sua dimensão trágica e cotidiana.

Quase uma década após sua estreia nacional, ocorrida em 2003, em São Paulo, a ópera de Ripper ganha nova versão, na qual o compositor enxuga sua duração e troca um grupo de instrumentos de câmara por uma orquestra – neste caso, a OSBrasileira Ópera & Repertório, sob a regência de Abel Rocha. “Reescrevi boa parte da ópera. Nove anos após a estreia, minha linguagem musical e a compreensão do texto da peça mudaram”, explica Ripper.

As mudanças foram acertadas. O libreto flui, conciso e preciso, respeitando as intenções do primeiro autor. Palavras e música imprimem ao espetáculo um desespero atávico e de proporções míticas. As emoções intensas dão também o tom da direção cênica de André Heller-Lopes, que elegante e inteligentemente explora a área em torno da piscina do Parque Lage, desenrolando ali o cerne da ação trágica. Colaboram ainda sobremaneira a iluminação de Fábio Retti e os (belos e expressivos) figurinos de Marcelo Marques.

As paredes de pedra, iluminadas ainda pela luz da lua, não escondiam as obsessões dos personagens, mas, antes, eram cenário que se aliava com total aderência a toda a concepção artística e musical, bem como ao excelente desempenho do time de cantores. Intérprete de voz expressiva, David Marcondes tem physique-du-rôle perfeito para o monumental Ismael, trágico como um Otelo de subúrbio. Ao seu lado, a talentosa Luísa Francesconi alcançou, em diversos momentos, a angústia doentia de Virgínia. Marcos Paulo criou um cego Elias de doçura e fragilidade, enquanto (no dia 20) Michele Menezes fez de sua Ana Maria uma jovem Electra perdida na escuridão. Merece ainda destaque pela imponente presença cênica a Tia interpretada por Ruth Staerke, acompanhada, como uma revoada de corvos, pelas filhas Flavia Fernandes, Maíra Lautert e Carolina Faria (que timbre!). Completaram o elenco Fabrizio Claussen, Murilo Neves e Frederico de Oliveira (este com trabalho corporal digno de nota).

A direção cênica bem elaborada, a regência precisa e o desempenho intenso da orquestra, a interpretação inspirada dos cantores, os figurinos primorosos, a expressiva luz – aliados à lua no alto, ao cenário perfeito, aos reflexos bruxuleantes da água da piscina – foram os ingredientes que coroaram à perfeição a requintada ópera de Ripper. São inesquecíveis momentos como o coro da maldição de Virgínia; a cena em que a protagonista alterna frivolidade e languidez para seduzir o cunhado cego; o terceiro ato, de grande variedade rítmica e beleza melódica, que culmina em um surpreendente e eletrizante final. Apesar de toda a tragédia da trama, resta, ao fim, a alegria de tantos talentos reunidos e levando aos palcos uma bela obra, originada do nosso mais importante dramaturgo. Que venham as outras dezesseis.