quarta-feira, 3 de outubro de 2012

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Escrito por Leonardo Marques em 3 out 2012 nas áreas Crítica
Dois concertos e três grandes cantores encantam o Rio.

(...) No dia seguinte, 1° outubro, foi a vez de a Orquestra Sinfônica Brasileira Ópera & Repertório (OSB O&R) subir novamente ao palco do Municipal para prosseguir com sua Série Lírica, que ajuda a matar a forme de ópera do público carioca – fome esta que o Municipal está bem longe de saciar em sua temporada própria.
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Ao contrário dos outros títulos da série, Il Pirata (O Pirata), ópera em dois atos de Vincenzo Bellini sobre libreto de Felice Romani, foi apresentada completa, inclusive com seus recitativos.  Se houve cortes (e um no primeiro ato certamente houve), foram aqueles de tradição, sem prejuízo ao entendimento da obra como um todo.  Baseada em Bertram, ou le Pirate, de Isidore J. S. Taylor, por sua vez inspirado na tragédia Bertram, or The Castle of Saint-Aldobrand, de Charles Maturin, a terceira ópera de Bellini, que foi a primeira a estrear no Teatro alla Scala, não é nenhuma obra-prima, ainda que já se possa nela perceber as sublimes melodias do compositor que se tornaria um dos pilares do bel canto.

O maestro italiano Tiziano Severini, com um gestual bastante singular, imprimiu estilo à OSB O&R, reforçada pela Banda dos Fuzileiros Navais, que interpretou com correção uma música aparentemente simples, mas que de fácil não tem nada em suas delicadas harmonias.  Destaque para o solo de corne inglês na cena final.  O Coro Ópera Brasil, que até onde sei foi arregimentado para a ocasião, preparado por Jésus Figueiredo, teve também um desempenho correto, em especial nas vozes graves masculinas.

Severini Hernandez 01 10 2012 29 crédito Cíc ero Rodrigues x 200 Alexander Nevsky e Il Pirata no Municipal RJ Posso estar enganado, mas à primeira vista tive a impressão de que os ensaios não foram suficientes para o entrosamento dos solistas, visto que mais de uma vez, nos números de conjunto, um cantor terminava sua parte antes do colega, ou seja, ora alguém esticava demais uma nota, ora outro encurtava a sua, causando uma sensação de desconforto a ouvidos habituados.
O tenor Ivan Jorgensen (Itulbo) e a soprano Maíra Lautert (Adele) estiveram bem.  Menos satisfatório esteve o baixo Frederico de Oliveira (Goffredo), que não pareceu tão à vontade, depois de ter se destacado na Tosca de 2011 aqui mesmo no Rio.  A seu favor, diga-se que o regente fez a orquestra tocar a tutta forza, sem pena, durante sua principal passagem no começo da ópera.  O barítono Igor Vieira alternou altos e baixos como o Duque Ernesto di Caldora.  Com adequados gestos e expressão facial convincente, sua voz oscilou, apresentando dificuldades especialmente nas passagens de agilidade.

O tenor Fernando Portari, que acaba de fazer um ótimo Pelléas em São Paulo, emprestou sua voz qualificada a Gualtiero, um nobre que se tornou pirata após ser banido de Caldora, e teve grandes momentos ao longo da noite, como no dueto com Imogene no primeiro ato, Tu siagurato! Ah! Fuggi; e em sua ária do segundo ato, Tu vedrai la sventurata.

Severini Hernandez 01 10 2012 10 crédito Cíc ero Rodrigues x 2001 Alexander Nevsky e Il Pirata no Municipal RJ
Fernando Portari e Saioa Hernandez
A soprano madrilenha Saioa Hernández deu vida a Imogene, que sempre amou Gualtiero mas, após o banimento deste, foi obrigada a se casar com Ernesto.  Dona de uma voz também qualificada, de belo timbre, ótimo volume e grande projeção em todos os registros de sua tessitura, a espanhola demonstrou ainda dotes de atriz em seus gestos e expressões.  Encantou e emocionou o público em passagens como o dueto acima citado e ainda em sua cavatina do primeiro ato, Lo sognai ferito, esangue; no dueto que evolui para terceto no segundo ato, Vieni: cerchiam pe’ mari; e na cena da loucura que encerra a ópera, Col sorriso d’innocenza.
Não posso encerrar sem dar o destaque máximo ao magnífico sexteto acompanhado de coro que encerrou o primeiro ato e recebeu belíssima interpretação de todos, em especial pela precisão dinâmica exigida pelo regente: Parlarti ancor per poco.

Foram, portanto, três belíssimas performances vocais em dois dias consecutivos no Municipal, além dos outros bons desempenhos acima descritos.  Pena que muita gente deixou de apreciá-los.  No caso do concerto do Municipal, porque, como já escrevi em outra oportunidade, com tanta mudança na programação, não há público que resista e consiga se programar com antecedência.

No caso da OSB O&R, um dos fatores talvez seja o dia dos concertos desta série (sempre às segundas-feiras), que não é dos mais procurados, sem falar que algumas pessoas foram embora no intervalo, talvez porque não soubessem que haveria uma segunda parte – no que, aliás, muito influencia o folderzinho simples distribuído ao público, que não é nem um pouco atrativo, apesar de gratuito.  Nem todo mundo faz questão de pegá-lo na entrada.

A próxima ópera em concerto da Série Lírica da OSB O&R será A Filha do Regimento, de Donizetti, em 12 de novembro, para a qual está anunciada a soprano Nino Machaidze na parte de Marie.  A conferir.