sábado, 20 de outubro de 2012

O GLOBO - Segundo Caderno

UMA ÓPERA REVISTA E AMPLIADA

Insatisfeito com a versão que criou em 2003, João Guilherme Ripper estreia um novo 'Anjo Negro'

 Catharina Wrede

Nos últimos nove anos, o compositor João Guilherme Ripper padeceu da angústia de não ter realizado, na sua opinião, uma adaptação bem-feita de uma peça de teatro para ópera. O texto em questão é “Anjo negro”, obra de Nelson Rodrigues que Ripper transformou em ópera em 2003 e cujo resultado não fora satisfatório. Em junho agora, ele decidiu se debruçar, finalmente, sobre o antigo projeto e reescrevê-lo quase que por completo. Hoje, às 20h, o compositor estreia o espetáculo do jeito que queria, acompanhado pela OSB Ópera & Repertório, tendo o Parque Lage como cenário.


A ópera, no Parque Lage, terá orquestra
Foto: Camilla Maia / Agência O Globo
Readaptação. A ópera, no Parque Lage, terá orquestra


A ideia do projeto surgiu quando o diretor cênico da ópera, André Heller-Lopes, convidou Ripper para adaptar a peça de Nelson. A versão de “Anjo negro” feita em 2003 chegou a ser apresentada em São Paulo no mesmo ano, mas parou por aí.

 — Eu estava extremamente insatisfeito com a transposição do tempo dramático da peça para o tempo dramático da ópera. Na época, musiquei a peça inteira sem fazer libreto. Só que uma coisa é ler uma peça, outra coisa é cantá-la. Estava longuíssima — recorda Ripper. — Ao cortá-la, faltaram as ligações necessárias. Meu trabalho neste ano foi libretar o texto de Nelson. Criei algumas cenas e sintetizei outras. Modifiquei 80% da primeira versão.
Outra mudança importante que transforma, segundo o compositor, a versão atual é que em São Paulo Ripper contou apenas com um quinteto de cordas, piano e percussão. Hoje, ele conta com uma orquestra sinfônica. Quem rege a OSB O&R é o maestro Abel Rocha.

Escrita em 1946, “Anjo negro” aborda questões como racismo, estupro e incesto, misturando realismo com referências à mitologia e ao teatro gregos. A peça narra a história de Ismael (David Marcondes), médico negro que mantém Virgínia (Luisa Francesconi), sua esposa branca, confinada. Os filhos que nascem acabam sendo afogados por Virgínia em um tanque (o que faz do Parque Lage, com sua piscina, o cenário ideal), por serem negros como o pai. 

Num corte temporal, a história dá um salto de 16 anos quando surge Ana Maria, branca e cega, apaixonada por Ismael, que acredita ser seu pai e o único homem branco do mundo.
— Minha primeira reação foi negar o convite do André para adaptá-la. É uma peça pesada, dramática, que não combina com as outras óperas que já fiz — conta o compositor. — Mas repensei e me apaixonei pelo texto. Percebi que ele foi escrito nos moldes de uma tragédia grega perfeita, com um coro tradicional que comenta e acusa. Então, pude aproveitar isso. Mantive 70% do texto do Nelson e o resto criei.

Ripper é o compositor brasileiro de ópera mais produtivo da atualidade. Dos compositores contemporâneos de música de concerto, ele é o que tem mais óperas apresentadas. Com “Anjo negro”, contabiliza a marca de três óperas encenadas apenas neste ano (as outras foram “Piedade”, em abril, e “Domitila”, em julho).

— Como compositor e libretista, é um privilégio acompanhar os ensaios e poder ir afinando o espetáculo que criei à medida que ele vai sendo encenado, na minha frente — diz Ripper.