quarta-feira, 3 de outubro de 2012

O Globo - Segundo Caderno

 
'IL PIRATA' OU A GLÓRIA DO
'BEL CANTO'
Ópera de Bellini reúne solistas de primeira e um tecido orquestral sofisticado
Ópera
Crítica
Il Pirata / Teatro Municipal
Cotação: Ótimo
Luiz Paulo Horta


A OSB Ópera & Repertório está cumprindo o que prometeu: arejar a temporada com obras que nunca são feitas por aqui - especialmente no terreno lírico. Assim tivemos segunda-feira, no Teatro Municipal, "Il Pirata", de Bellini, que soava como uma primeira audição. Era uma versão de concerto (sem a cena), mas os solistas estavam ótimos, e o maestro Tiziano Severini nos ofereceu um tecido orquestral que, sozinho, já valia a noite.
Vincenzo Bellini (1801- 1835) é um dos mestres do estilo "bel canto" - a ópera romântica italiana em que também brilharam Rossini e Donizetti.

Menos poderoso e inventivo que esses seus colegas, fazia - até fisicamente - a perfeição do estilo romântico: lânguido, bem vestido, tuberculoso. Não admira que, na Paris de 1830, tenha sido tão amigo de Chopin. Mais que isso: o seu maravilhoso "cantabile" é uma das fontes dos "noturnos" de Chopin. O próprio Verdi comentou, falando dele: "melodias longas, que ninguém ainda tinha escrito". É a definição da "Casta Diva".
O "Pirata" de segunda-feira não tem a força dramática da "Norma" (sua obra prima). Mas a linguagem aparentemente simples deixa passar uma emoção verdadeira, numa história arquirromântica.

A fase Rossini-Bellini-Donizetti supõe grandes vozes. São óperas feitas para a voz. Quando falamos nelas, vêm à mente nomes legendários: Malibran, Giuditta Pasta e os fabulosos "castrati". Segunda-feira, calçados num magnífico tecido orquestral, tínhamos a soprano Saioa Hernandez e o tenor Fernando Portari, além do bom barítono Igor Vieira. "La Hernanez tem esplêndido material vocal. Talvez lhe falte uma personalidade mais impositiva, daquelas que enchem o palco; mas quando ela subia (muito bem) para os agudos, levava a platéia ao delírio - o sempre apaixonado público de ópera. Portari entrou numa belíssima maturidade, voz generosa, musical, e está desenvolvendo o lado dramático, que não era o seu forte. Também tínhamos um coro muito bom, dialogando com os solistas. Assim vamos nos consolando um pouco de uma temporada de ópera que não disse a que veio. O Municipal pode estar repleto de bons programas; mas quando a ópera falta, que vazio!