quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Cordas, Madeiras e Metais

Amanda de Andrade

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Vive la France!

"A filha do regimento" de Gaetano Donizetti, apresentada ontem em forma de concerto pela OSB Ópera e Repertório no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, foi a sétima produção da Série Lírica da orquestra. Dessas sete, eu fui a cinco e afirmo com muita convicção que esta foi a melhor! É tanto elogio para distribuir que torço para que meus queridos leitores estejam com paciência...

A noite contou com inúmeras passagens marcantes desde as primeiras notas do belíssimo solo de trompa que introduz a obra até os últimos acordes do "grand final" que levou o público a uma ovação desenfreada. Assim como fez o maestro beijoqueiro Francesco Maria Colombo, também destacarei os solistas da orquestra. Josué Soares (trompa) não só abriu a noite com muita segurança, mas também foi solicitado em outros trechos da ópera, ora levando energia aos soldados do regimento, ora potencializando os lamentos da jovem Marie. Victor Astorga (oboé/corne inglês) foi responsável pela ária mais bonita e emocionante da noite, acompanhando a soprano (depois eu volto pra falar dela) na sua triste partida dos campos de batalha. Mateus Ceccato (violoncelo) não ficou atrás, lamentando a falta de esperança no destino de Marie forçada a se enfurnar na alta sociedade. O quarteto de cordas que abre o segundo ato, transformou o contexto da trama de campo de batalha para palácio aristocrático. Quem precisa de cenário quando se tem Mateus Ceccato (violoncelo), Déborah Cheyne (viola), Luzer Machtyngier (violino) e Michel Bessler (violino) descrevendo muito claramente o ambiente?

Eu poderia, na verdade, citar cada um dos integrantes da OSB Ópera e Repertório pelo nome. As cordas arrepiaram com um som coeso e maduro, acompanhando o clima do enredo. Os metais e a percussão trabalharam pacas nessa obra com temática militar e o fizeram com tanta classe que eu estou quase me alistando nas forças armadas! As madeiras definiram a personalidade de cada personagem trazendo especial doçura e leveza ao casal principal. Bravi! Bravi! Bravissimi!

Os programas de meia folha distribuído nos concertos dessa orquestra continuam me irritando pela falta de informação e desta vez ainda cometeram uma injustiça ao não destacarem o barítono Leonardo Páscoa dentre os solistas da noite. Além do papel de Sulpice ter bastante importância na trama, ele simplesmente arrasou com a sua presença de palco invejável e sua voz vigorosa.

O tenor Jacques Rocha é um fenômeno e tem tudo para crescer cada vez mais rápido. Além de possuir uma linda voz, ele é muito expressivo e cativa o público logo nas primeiras notas. Também tem uma boa dicção no francês, o que permitiu que eu focasse nele e não nas legendas, facilitando bastante a empatia. Eu testemunhei a sua estréia profissional no início do ano e o seu progresso em pouco tempo é impressionante. Além disso, é um prazer perceber os sorrisos e a vibração de alguns membros do coro ao ouvi-lo atingir aquelas notas mais agudas e mais difíceis sem titubear. Alias, um belíssimo trabalho do coro e seu diretor, cujo nome eu desconheço pois não consta no programa (grrrrrrr...)!

Agora, a grande estrela da noite, a filha da orquestra, linda, voz fantástica, encenação impecável, expressão facial enternecedora, me fez rir, chorar, arrepiar e me deixou boquiaberta: Nino Machaidze é uma soprano fabulosa de apenas 29 anos de idade, diretamente da Georgia para os palcos cariocas! Para aqueles ruins de geografia, a Georgia é um pequeno país espremido entre Russia, Armênia, Azerbaidjão e o Mar Negro. Vou ficar o resto do dia viajando na concatenação de eventos que foram necessários para que fosse possível o meu deleite de ontem à noite graças ao canto dessa diva. Bom feriado a todos!