quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Blog - Cordas, Madeiras e Metais

Amanda de Andrade


Retrospectiva 2012

Já que todo mundo resolve fazer retrospectivas e balanços no final do ano, não vou fugir à regra. Este ano de 2012 no Rio de Janeiro não foi dos mais gloriosos para a música clássica principalmente devido à escassez de grandes produções do Theatro Municipal. No entanto, tive o privilégio de testemunhar alguns momentos maravilhosos nas salas de concerto da cidade, que ficarão na minha memória e registrados aqui.
O ano começou com um susto: o desmoronamento dos prédios adjacentes ao Theatro Municipal no Centro do Rio de Janeiro. Além da trágica perda de vidas e dos transtornos causados nos arredores, esse infeliz incidente levou o TMRJ a fechar suas portas para obras e limpeza emergenciais. Com isso, orquestras e solistas ficaram sem teto e tiveram que improvisar da melhor forma possível. Alguns adiaram o início da temporada, enquanto outros optaram por manterem seus compromissos em salas menos nobres.
A Orquestra Petrobras Sinfônica fez milagre no Vivo Rio, abrindo a sua temporada com a "Vida de Herói" do Richard Strauss e emendando em uma estréia mundial da ópera (em forma de concerto cênico) "Piedade" de João Guilherme Ripper. Dentre os concertos das séries principais da OPES, eu diria até que esses foram os mais marcantes da temporada, embora seja importante frisar que, por motivos de força maior, eu perdi tanto o concerto com o Antonio Meneses quanto o com Arnaldo Cohen (e soube que ambos foram maravilhosos). A série Mestre Athayde também trouxe lindas surpresas incluindo uma performance memorável do Concerto em ré maior para violino de Beethoven com Elissa Cassini no violino e Felipe Prazeres na regência e uma dobradinha Haydn-Bach com participação mais do que especial do maestro/solista Domenico Nordio. E não só de cordas vive a OPES que teve com o Grupo de Metais (regência de Antonio Augusto) um dos eventos musicais mais alto-astral da temporada em uma tarde que foi de Bach a Luiz Gonzaga passando por Vivaldi e Francisco Braga. Saldo do ano: meu amor e minha assinatura da OPES estão devidamente renovados!
A "orquestra revelação" do ano, OSB Ópera & Repertório, se destacou principalmente pela sua série lírica que veio preencher uma lacuna no repertório da cidade, apresentou títulos pouco encenados, revelou novos talentos e ainda trouxe solistas de renome internacional para os nossos palcos. Afirmo, sem medo de ser feliz, que a récita mais memorável do ano para esse conjunto foi a produção (em forma de concerto) da "Filha do Regimento" de Gaetano Donizetti com Nino Machaidze (Marie), Jacques Rocha (Tonio) e Leonardo Páscoa (Sulpice). A FOSB prometeu duas séries próprias da O&R para 2013. Estou no aguardo.
Os corpos do Theatro Municipal foram pouco exigidos esse ano devido à fraca temporada e ainda sofreram com a falta de condições adequadas de trabalho devido ao desabamento parcial do prédio anexo ao Theatro, onde eram realizados os ensaios, entre outras atividades de bastidores. Como se não bastasse, esse ano a casa completa 10 anos sem um concurso para renovar o seu quadro e segue preenchendo as vagas com contratos temporários. Em meio a poeira, crise e obras, no entanto, esse pessoal ainda consegue colocar de pé espetáculos que encantam o público e lotam a grande sala. Clássicos como Coppélia e Quebra-Nozes têm sucesso praticamente garantido e, por mais que os artistas reclamem da falta de originalidade, continuaremos fazendo fila para assisti-los. Para mim, contudo, as obras deste ano que ficarão na memória são Onegin (com a dupla dramática nota 1000: Márcia Jaqueline e Filipe Moreira), A Criação (o pas-de-deux mais lindo que eu já vi, assinado por Uwe Scholz) e o Requiem de Verdi (deu vontade de morrer!). Theatro Municipal é Theatro Municipal! Só espero que quem estiver na direção, por trás das cenas, no fosso e/ou no palco sempre se lembre da responsabilidade e da honra que é carregar essa coroa...
Mas vamos em frente, pois nem só de orquestras sinfônicas vive o Rio de Janeiro! Esse ano a cidade recebeu alguns convidados ilustres. Não pude assistir a todos (esses convidados costumam pesar no bolso) mas dois deles foram extremamente marcantes. Ouvir as notas saindo diretamente do violino do Itzhak Perlman para meus humildes ouvidos foi a realização de um sonho. Muito bem acompanhado pelo pianista  Rohan de Silva, o cara reúne talento, experiência, bom humor e um sensibilidade invejável. Saí da sala dando pulinhos de alegria e não tem melhor medidor de qualidade de um espetáculo do que a altura dos meus saltos. O outro astro que brilhou na minha recordação foi a bem-mais-jovem Hilary Hahn. Ela é linda, talentosa, simpática e inteligente, mas o que mais me impressionou foi o repertório recheado de seis (eu disse seis!) estréias mundiais. Grande presente!
E para dar mais um tempero nessa história toda, não podemos deixar de lado os festivais que trazem novidade, descontração e animação à cena erudita carioca. Nunca vou a todas as apresentações que eu gostaria (esse negócio de ter que trabalhar para ganhar a vida é um problema) mas dá pra aproveitar bastante. O Eternos Modernos marcou o primeiro trimestre e foi, além de um prazer sonoro, uma aula de história para quem pode acompanhar a programação toda. Troféu Diversão Garantida para a Banda Anacleto de Medeiros com destaque para o seu percussionista Oscar Bolão. Nunca tinha saído de um concerto rolando de rir, muito obrigada! Meu xodó entre os festivais continua sendo o Rio International Cello Encounter (RICE) e ele continua fazendo bonito. Esse ano, assisti à violinista Karolin Broosch tocando serrote, ao David Chew tocando Villa Lobos, ao Dave Haughey arrasando no folk, ao Trio UFRJ tocando Schumann e ao Tito Cartechini e seu bandoneón encantado. Durante a Semana Internacional de Música de Câmara do Rio de Janeiro, acabei me aproximando de São Paulo com o Quarteto OSESP tocando Beethoven no Jardim Botânico. Mas o festival dos festivais de 2012 foi o 50o Festival Villa-Lobos. Perdi a abertura com Hugo Pilger tocando o violoncelo do Villa, mas me deliciei com várias outras atrações incluindo o Quinteto Villa-Lobos, o Quarteto Radamés Gnattali, o Monarco e a Teresa Cristina homenageando o Paulinho da Viola e o encerramento com a OPES e Marcelo Caldi em homenagem ao centenário de Luiz Gonzaga! Quero só ver o que esses produtores estão aprontando para 2013...
Até que o ano foi legal, com vários momentos emocionantes, tocantes, divertidos, descontraídos e relaxantes. Tudo que a gente espera da música boa. Mas sonhar não custa nada então segue a minha lista de desejos para 2013:
- Mais J.S. Bach, sempre! (Menção honrosa aqui para a Cia. Bachiana Brasileira. Assisti esse ano às cantatas 4, 5 e 6 com quarteto de cordas no CCJF que deixou o gostinho de quero mais na boca. Perdi o oratório completo mas tenho certeza que eles estão matutando algo bem inusitado para 2013...)
- Menos concertos encenados e mais óperas com produções completas (principalmente com orquestra e coro do TMRJ)
- Mais balé (esses dançarinos do Theatro não deveriam parar nunca! rssss).
- Mais semanas de música de câmara (temos muitos grupos muito bons e poucas oportunidades para eu ouví-los, quero mais Trio UFRJ, Quinteto Villa-Lobos, Quarteto Radamés Gnattali, Banda Anacleto de Medeiros, Quarteto Uirapuru, Duo Assad, Duo Santoro, Quarteto Rio de Janeiro, Quarteto Menezes, Quarteto Guanabara, Duo Veredas, Art Metal Quinteto).
- Mais junções de música de orquestra com música popular.
- Mais Verdi, menos Wagner nesse bicentenário (já sei que vou apanhar por causa desse aqui...).
- Pelo menos uma sinfonia de Beethoven (não dá pra ficar um ano inteiro sem!). 
Já deu pra notar que, se depender de mim, os músicos do Rio de Janeiro morrem de exaustão, né? 
Muito obrigada a todos que contribuíram para esses momentos maravilhosos e que venham muitos mais em 2013. Agora vou me preparar para dois meses de marasmo total da cena clássica carioca ouvindo rock, jazz, blues, choro e samba e espero todos de volta às salas de concerto em março. 
Feliz ano novo com muita música!