domingo, 16 de dezembro de 2012

MOVIMENTO.COM - Fabiano Gonçalves



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Ópera de Marcos Portugal, em excelente performance da OSB, rende deliciosos momentos em récita no Municipal do RJ. 


Em 1804, estreou, no Teatro São Carlos, em Lisboa, a ópera O ouro não compra o amor, composição de Marcos António da Fonseca Portugal (Lisboa, 24/03/1762 – Rio de Janeiro, 17/02/1830), prolífico organista, maestro e compositor luso-brasileiro. A mesma obra foi apresentada no Rio de Janeiro em 1811, por ocasião do aniversário de D. Maria I.

Para celebrar os 250 anos do nascimento de Marcos Portugal, compositor oficial da Corte de Dom João VI e Mestre de Música de Suas Altezas Reais os Infantes, a Orquestra Sinfônica Brasileira, sob regência de Bruno Procópio, realizou versão de concerto da ópera na noite de 10 de dezembro, no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, como parte da série OSB Ópera & Repertório.
Composta com a pena da galhofa, O ouro não compra o amor é peça de grande charme. Extremamente bem escrita, no melhor estilo do bel canto italiano (com todo o texto nesse idioma, inclusive), foi, para muitos, inspiração para O barbeiro de Sevilha (composta por Rossini em 1816) – verdade seja dita, há muitas semelhanças. A trama é trivial: conta a história do Barão Alberto de Moscabianca, que tenta seduzir a donzela Lisetta, prometida de Giorgio, usando sua condição financeira. Ao fim da história, o nobre percebe que o ouro não compra o amor. Ele tem seu dinheiro devolvido, e a moçoila e seu ex-noivo se reconciliam.

Gemas reluzentes
A récita da obra de Portugal faz jus à palavra italiana giocare, que, em português, pode ser traduzida tanto por tocar como por brincar. A recente apresentação, mesmo visivelmente precedida por um trabalho sério e dedicado, foi uma grande diversão.
O regente Bruno Procópio imprimiu perfeita dinâmica ao concerto, acertando em absolutamente todos os andamentos e intenções, e mantendo a performance da Orquestra Sinfônica Brasileira em um nível de excelência – fato que vem se repetindo a cada apresentação do grupo, colocando a OSB entre as melhores orquestras do país.

Grande acerto também foi a escolha dos cantores. As vozes masculinas soaram magistrais: à frente, o tenor Geilson Santos (Barão Moscabianca) e o potente barítono Leonardo Páscoa (Giorgio) – que brilhou especialmente na graciosa ária Cittadini forastieri, do segundo ato, acompanhado por violinos em pizzicatto. Nos coadjuvantes, Anibal Mancini (Cecchino, irmão de Lisetta), tenor de voz brilhante; e os ótimos baixo-barítonos Manuel Alvarez (Pasquale, pai) e Daniel Soren (Casalichio). Como apoio luxuoso no coro, Luiz Henrique Furiati, Luiz Ricardo Lopes e Victor Borborema.
Ainda brilharam as cantoras Veruschka Mainhard (Carlotta), soprano, e Andressa Inacio (Dorina), mezzo de belo timbre. Mas coube ao soprano Marianna Lima o resplandecente protagonismo. Sua Lisetta emanava humor e jocosidade, e a intérprete, com presença de espírito, soube aproveitar as deixas para arrancar boas risadas da plateia. Para citar um dos momentos inesquecíveis, a ária Quel piacere, no primeiro ato, ilustrada por bonitas intervenções do oboé.

As orquestrações de Portugal são ricas e lançam mão das inúmeras potencialidades dos instrumentos da orquestra. Colorido há também na exploração das características dos timbres dos cantores, em especial nos exuberantes ensembles, como o do final do primeiro ato, que instaura o imbróglio. Diante desse fausto musical e das possibilidades artísticas que a obra guarda, permanece uma dúvida: por que a ópera O ouro não compra o amor não está, como deveria, também nos melhores palcos mundo afora?