quarta-feira, 10 de abril de 2013

MOVIMENTO.COM - Fabiano Gonçalves

 britten 600

Escrito por Fabiano Gonçalves em 10 abr 2013 nas áreas Crítica
OSB Ópera & Repertório homenageia compositor britânico em seu centenário de nascimento.


"A Orquestra Sinfônica Brasileira Ópera & Repertório exerceu com garbo seu papel, executando com excelência a difícil e atmosférica música de Britten."


Logo no nascimento do gênero, consta que, em 1683, John Blow compôs Vênus e Adonis, considerada a primeira ópera escrita em língua inglesa. Mas foi verdadeiramente Henry Purcell o responsável por fincar a bandeira inglesa no ainda pouco explorado território operístico. Sua Dido e Enéas, baseada em Eneida, de Virgílio, estreou em Londres em 1689 e narra a história da rainha de Cartago e seu amor pelo invasor príncipe troiano. Excetuando-se as composições escritas por Georg Friederich Händel, alemão naturalizado inglês, o gênero operístico nas terras da Rainha naufragou ali mesmo no século 17, tendo ficado centenas de anos sem expressividade.

Até que, em meados do século 20, um compositor trouxe a Inglaterra novamente para a seara da ópera. Edward Benjamin Britten (1913-1976), compositor de cores bastante individuais, atraiu atenções em 1945, com a estreia de Peter Grimes, ópera baseada na coleção de poemas The Borough, de George Crabbe. Em 1951, com base na novela de Herman Melville, Britten compôs outra importante obra: Billy Budd. Três anos depois, a inspiração foi Henry James e seu romance A Volta do Parafuso, gerando ópera homônima. Até que, em 1960, Britten foi à fonte da língua inglesa: William Shakespeare e sua peça Sonho de uma Noite de Verão. A ópera, em três atos, com música de Britten e libreto de seu companheiro Peter Pears, trouxe uma marca indelével à peça do bardo. E foi exatamente essa notável ópera a escolhida pela Orquestra Sinfônica Brasileira Ópera & Repertório para o concerto em homenagem ao centenário de nascimento do compositor inglês.

Reino mágico

As cortinas do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, na noite de 5 de abril, não pareciam feitas do tradicional veludo vermelho, mas, antes, assemelhavam cosidas com levíssima musselina que, suavemente, separava plateia do território encantado de fadas, duendes e elfos que habitam o bosque no qual a ópera se passa e que pululam entre as notas enfeitiçadas do compositor.
Sob a elegante regência de Roberto Tibiriçá, a cena foi aberta com hipnóticos glissandi dos contrabaixos da OSB O&R, já criando o clima etéreo da arrojada composição, cuja harmonia exala perfumes muito exóticos e particulares. Seguiu-se uma encantadora participação do Coro de Crianças da OSB, preparado pelo maestro Júlio Moretzsohn – eram as fadas (entre elas, Teia de Aranha, Flor de Ervilha, Mariposa e Semente de Mostarda) que anunciavam a chegada da Rainha Titânia e do Rei Oberon ao bosque de Atenas. O casal, enfurecido, discutia; o rei, então, ordena a seu duende Puck que prepare uma vingança. A partir daí, entrecruzam-se histórias de fadas, amantes e rústicos artesãos.

Gabriella Pace (Titânia) e Luísa Francesconi (Oberon, personagem originalmente escrito para contratenor) defendem com galhardia suas participações. A soprano Pace alcança, com leveza, as notas agudas da partitura, enquanto a mezzo Francesconi incorpora convincentemente o arrogante rei – de maneira geral, mesmo tratando-se de uma cortina lírica na qual os cantores não interpretavam os papéis, os artistas imbuíam-se de intenções cênicas, o que já trazia grande e positiva diferença para o desempenho. Bravos especiais para o violoncelista David Chew, que executou, com a desenvoltura de um ator profissional, as falas de Puck, papel apenas recitado.

Os rústicos também amam

O imbróglio dos jovens amantes da corte de Teseu – Lisandro, Demétrio, Hérmia e Helena – torna-se ainda mais rocambolesco com as boas performances, respectivamente, do tenor Eric Herrero, do barítono Guilherme Rosa, da mezzo Carolina Faria e da soprano Flávia Fernandes. Destacam-se, particularmente, a brilhante tessitura de Rosa e a beleza do timbre de Faria (esta, ainda, com divertida mise-en-scène).

O grande acerto do casting do recital – mérito de André Heller-Lopes, coordenador de elenco da orquestra – estava principalmente na escolha dos intérpretes que deram vida (e quanta vida!) à trupe de rústicos artesãos que buscavam montar uma peça para o casamento de Teseu. À frente, o barítono Leonardo Neiva como o tecelão Bottom. Dono de voz de belo timbre e emissão impecável, Neiva ainda brindou o público com uma atuação inspirada. Nos momentos em que seu Bottom estava enfeitiçado por Puck com uma cabeça de burro, o cantor lançou mão de ótimos artifícios vocais para remeter aos relinchos do quadrúpede.

Completando o grupo estava o atrapalhado quinteto composto pelos baixos Murilo Neves (o carpinteiro Quince) e Patrick Oliveira (Snug, o marceneiro), o barítono Vinicius Atique (o alfaiate Starveling), e os tenores Thiago Soares (Snout, um funileiro) e Marcos Paulo (o fabricante de foles Flute e a noiva Tisbe). Poucas vezes o sisudo Theatro Municipal viu gargalhadas tão sonoras como quando Marcos Paulo entra em cena como a jovem donzela Tisbe. De peruca loira, xale pink e uma hilariante expressão corporal, o tenor roubou as cenas em que participou – e notem que estavam no palco os ótimos Neiva como o noivo Príamo, personagem interpretado por Bottom, e Soares como o Muro que separa os amantes e contém um singelo buraco. O elenco completava-se com as participações, na cena final, da contralto Lídia Schaeffer (Hipólita, rainha das amazonas) e do baixo-barítono Márcio Marangon (o herói Teseu).

A Orquestra Sinfônica Brasileira Ópera & Repertório exerceu com garbo seu papel, executando com excelência a difícil e atmosférica música de Britten. Ressalvas aos pequenos deslizes dos metais e loas à perfeição do naipe de percussões, bastante exigido na partitura. De modo geral, o grupo e o maestro Tibiriçá imprimiram a devida sofisticação à obra, por exemplo no lírico e encantado final da dança bergamasca, na qual os personagens celebram a volta do amor. Partitura de qualidade ímpar, grupo orquestral acima da média e intérpretes brilhantes no palco do Theatro Municipal do Rio de Janeiro eram uma alegre realidade – e não um sonho.