sábado, 6 de julho de 2013

MOVIMENTO.COM - Fabiano Gonçalves

jupyra-600
Escrito por em 5 jul 2013 nas áreas Crítica
 
Soprano argentina e OSB Ópera & Repertório levam à cena duas obras brasileiras menos conhecidas.
Se os europeus tinham como heróis seus cavaleiros medievais em armaduras brilhantes, nosso Romantismo celebrava a figura do único e verdadeiro brasileiro: o índio. O movimento artístico conhecido como indianista deu origem a obras ainda hoje célebres, como o poema I-Juca-Pirama (1851), de Gonçalves Dias; os romances O Guarani (1857), Iracema (1865) e Ubirajara (1874), de José de Alencar; e pinturas como Moema (1866), de Víctor Meirelles. A influência do movimento chegou, naturalmente, à música. A obra mais conhecida é a grandiosa ópera Il Guarany, de Antônio Carlos Gomes, em italiano, com libreto de Antonio Scalvini a partir do romance de José de Alencar. A estreia ocorreu no Teatro Scala, em Milão, na Itália, em 19 de março de 1870, fazendo um estrondoso sucesso.

Mas essa etnia não foi a única a achar espaço na cena lírica nacional. Raças diferentes se encontraram em obras menos conhecidas do grande público que trazem, em seu bojo, esse herói de cocar e tacape. Entre elas, duas que a Orquestra Sinfônica Brasileira Ópera & Repertório apresentou, sob a regência do maestro Sílvio Viegas, na noite de 4 de julho no Theatro Municipal do Rio de Janeiro: Jupyra, de Francisco Braga, e Moema, de Delgado de Carvalho.

Canto das três raças

Aos 22 anos, o músico carioca Antônio Francisco Braga (1868-1945) participou do concurso oficial para a escolha do novo Hino Nacional Brasileiro. Sua classificação entre os quatro primeiros colocados garantiu-lhe uma bolsa de dois anos para estudar na Europa – fato que mudou sua vida. Aluno de Jules Massenet e admirador de Richard Wagner, compôs, com base em novela publicada em 1872 por Bernardo Guimarães, Jupyra, ópera em um ato que estreou no Teatro Lírico do Rio de Janeiro em 1900, ano da volta do compositor ao Brasil e em comemoração ao quarto centenário da Independência. Em 1905, compôs a obra pela qual é mais conhecido: o Hino à Bandeira, com versos de Olavo Bilac – o que lhe valeu o singelo apelido de Chico dos Hinos.

Cantada em italiano (na época, a língua oficial da ópera no mundo todo), a obra conta a história de uma índia mineira envolvida em um grande dramalhão: Quirino ama Jupyra, que ama Carlito, que, apesar de comprometido com Jupyra, ama Rosália. Desde sua estreia, a ópera foi montada no Theatro Municipal do RJ apenas uma vez, na década de 1960. Segundo o maestro John Neschling (que regeu a Osesp em gravação da ópera para o selo sueco Bis), Jupyra tem “altíssima qualidade musical. Francisco Braga é um ponto alto da criação brasileira no século 19”.

A obra começa com um coro fora de cena (participação da Associação de Canto Coral), anunciando que o amor é volúvel, que muda como a lua e o vento. Segue-se uma abertura, com percussões apocalípticas e flautas primaveris, na qual as cordas dos violinos atravessam as sombras dos contrabaixos e adentram a selva na qual se desenrola a trama. De modo geral, a OSB acompanhou com coesão a bela partitura de Braga, que tem melodias inebriantes, orquestrações ricas e encantadora utilização das possibilidades de instrumentos como harpa, flauta, oboé, violoncelo, tímpanos e violinos.

No papel principal, a argentina Florencia Fabris, dona de timbre potente, demonstrava alguma insegurança com relação à parte e, talvez em função disso, deixou a desejar na interpretação, cantando com frieza. A cantora não conseguiu imprimir suavidade e emoção nem ao evocar um romântico pôr-do-sol. A tensão na orquestra anuncia a chegada de Quirino, exuberantemente interpretado pelo barítono David Marcondes. Dono de voz quente e caudalosa, David acrescentou emoção de sobra ao personagem. O tenor Eric Herrero também fez bonito como Carlito, papel que exigiu de seu intérprete um timbre vigoroso e heroico. Completou o elenco a soprano Flávia Fernandes, que teve uma participação correta como Rosária. Ao final, entre intervenções dos metais, a execução se encerra com a convicção de que vimos uma ópera de grande valor musical.

Morrer de amor

Depois do intervalo, o grupo volta ao palco para mais uma cena indígena: desta vez, foi apresentada a ópera Moema, de Joaquim Torres Delgado de Carvalho (1872-1921). A estreia desta peça de um ato se deu, com grande êxito, em 1894, mas a glória veio com a inclusão da obra no programa de abertura do Theatro Municipal do Rio, em 1909. Renato Almeida, em seu compêndio História da Música Brasileira (editora F. Briguiet & Comp.), escreveu: “O autor foi saudado como uma auspiciosa promessa, que não chegou, todavia, a se confirmar”.

As cores ufanistas e grandiosas exalam da partitura de Moema. A ação já se inicia no auge: a índia Moema e o português Paulo, amantes, foram pegos pelo pai dela, o cacique Tapyr, que aprisiona o rapaz. A nativa percebe que a vida de seu amado está ameaçada pelo ódio de seu pai e seu irmão (Japyr), e então sacrifica sua própria vida para protegê-lo.

A orquestração é pesada e exige mais dos cantores – em especial, da insegura Fabris (Moema) e do tenor Herrera (Paulo), sendo que este, mais uma vez, defende seu papel com galhardia, alcançando momentos de extrema beleza. O baixo Márcio Marangon tem presença discreta como Japyr. A cena é roubada mesmo por David Marcondes, excelente como o cacique: sua ária final, em que chora a morte da filha, é de profunda dor e desespero.

Os sentimentos em cena são os mesmos, independentemente da etnia: amor, ciúmes, traição e vingança. Maestro, músicos e cantores, alguns mais, outros menos, fizeram bonito trabalho na interpretação dessas obras pouco conhecidas. O grande mérito, entretanto, é da Fundação OSB, ao permitir ao público carioca essa noite de redescoberta do Brasil.
*  *  *  *  *
Em tempo: o Theatro Municipal do RJ precisa dedicar mais atenção às legendas, que têm sido apresentadas com erros de português e desrespeitando as normas da nova ortografia. Cuidado!
Share on facebookShare on twitterShare on email