terça-feira, 24 de dezembro de 2013

MOVIMENTO.COM - Leonardo Marques

 La Bohème
Medeia 

Se La Bohème encerrou a temporada lírica paulistana deste ano, Médée (Medeia), encerrou a única programação lírica realmente séria apresentada no Rio de Janeiro em 2013 (uma vez que as três óperas esparsas do Municipal carioca não passam de um escárnio com o público): a soma das séries Ônix e Ágata, nas quais a Orquestra Sinfônica Brasileira – Ópera & Repertório apresentou oito óperas em forma de concerto.

A obra de Luigi Cherubini, sobre libreto de François Benoit Hoffmann, com base na tragédia grega da mãe que mata seus próprios filhos para se vingar da traição de seu marido Jasão, teria a soprano Eliane Coelho como protagonista. A cantora, porém, teve um problema de saúde e ficou completamente sem voz no dia exato da apresentação. Uma pena e uma lástima, porque é sempre um prazer ouvi-la.

Objetivando não cancelar o concerto, a Fundação OSB chegou a uma solução inusitada: escalou duas cantoras para dividir a parte principal. A soprano Tati Helene interpretou Medeia no primeiro ato e na primeira parte do terceiro ato; e a também soprano Veruschka Mainhard deu vida à personagem no segundo ato e na parte final do terceiro ato. Ambas tiveram menos de 12 horas para estudar a partitura e, certamente por isso, o dueto entre Medeia e Jasão que encerra o primeiro ato foi cortado.

Helene cantou muito bem sua ária do primeiro ato, Vous voyez de vos fils la mère infortunée, mas esteve menos segura naquela do terceiro ato, Du trouble affreux, o que é natural considerando-se o caso acima esclarecido. O mesmo ocorreu com Mainhard, que esteve bastante insegura durante todo o segundo ato, mas se recuperou na segunda parte do terceiro e interpretou muito bem todo o finale da ópera. Pelo esforço e pela coragem (afinal, estamos falando de um papel imortalizado por Maria Callas), as duas merecem aplausos.

Completaram o elenco as sopranos Maíra Lautert (Dircée – precisa controlar melhor seus agudos) e Michele Menezes (criada); a mezzosoprano Marianna Lima (bem como outra criada); a contralto Kismara Pessati (Neris – bem em sua ária Ah, nos peines); e o tenor Charles Cruz (muito bem como Jasão). O baixo Savio Sperandio foi a voz da noite como Creonte e brilhou tanto no trio do primeiro ato com Dircée e Jasão, como no dueto com Medeia no segundo ato.

O coro arregimentado para o concerto, preparado por Priscila Bonfim, esteve muito bem, bastante expressivo e equilibrado. Já a OSB O&R cresceu ao longo da noite sob a condução do argentino Carlos Vieu, com destaque para a belíssima interpretação do prelúdio do terceiro ato, em que as cordas graves cantaram lindamente.

As séries Ônix e Ágata da OSB O&R salvaram o ano lírico carioca, ainda que as óperas de ambas as séries tenham sido apresentadas apenas em forma de concerto. Se o melômano carioca dependesse apenas da programação própria do Municipal para ouvir óperas completas ao vivo, estaria perdido. Espero que tais séries se mantenham vivas na próxima temporada. Aguardemos para saber.