quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

UFRJ forma primeiro Bacharel em Bandolim da América Latina



Fotos: Ana Liao

Es­crito por Fran­cisco Conte
Terça, 10 de De­zembro de 2013
23:44

Em uma noite con­cor­rida, que contou com a pre­sença de com­po­si­tores, ins­tru­men­tistas, pro­fes­sores, fa­mi­li­ares e amigos, Kleber Kurt Vogel se tornou, nesta sexta-feira (06/12), o pri­meiro aluno a com­pletar o Ba­cha­re­lado em Ban­dolim da UFRJ, curso pi­o­neiro criado pela Es­cola de Mú­sica (EM) em 2010. Ele apre­sentou, na Sala da Con­gre­gação, o re­cital de for­ma­tura e cum­priu, dessa forma, o úl­timo re­qui­sito ne­ces­sário à ob­tenção do di­ploma.

Um feito que faz dele, se­gundo in­formou o di­retor da EM, ma­estro André Car­doso, o pri­meiro ban­do­li­nista a gra­duar-se em toda a Amé­rica La­tina. "O mé­rito não é meu, afirmou com mo­déstia, mas da ins­ti­tuição que soube acre­ditar em um ins­tru­mento que acu­mulou ao longo dos sé­culos um re­per­tório sig­ni­fi­ca­tivo, ao mesmo tempo bo­nito e ela­bo­rado, e que atraiu o in­te­resse de grandes nomes da mú­sica".

Kleber Vogel tem razão. O ban­dolim, cuja origem re­monta ao sé­culo XVI, não tem lugar ga­ran­tido apenas na mú­sica po­pular. A nobre li­nhagem de com­po­si­tores que es­creveu para o ins­tru­mento in­clui nomes do ca­libre de Vi­valdi, Ha­endel, Mo­zart, Pai­si­ello, Be­ethoven, Pa­ga­nini e Verdi.

Acima, Kleber Vogel e a pi­a­nista Vi­viane So­bral que
o acom­pa­nhou du­rante o re­cital. Abaixo, Joel Nas­ci­mento,
grande nome do ban­dolim bra­si­leiro, pres­ti­giou o evento.

No sé­culo pas­sado, para ficar em al­guns exem­plos, Mahler o in­cluiu nas suas 7ª e 8ª Sin­fo­nias e em A Canção da Terra; Schönberg, na Se­re­nata Op.24 e nas Va­ri­a­ções Or­ques­trais Op.31; We­bern, em Cinco Peças Or­ques­trais; Henze, em König Hirsch; e Stra­vinsky, em Agon.

Desse enorme acervo Vogel exe­cutou a So­na­tina em Dó Menor para ban­dolim e piano de Be­ethoven. "A in­tenção foi dar co­lo­rido ao pro­grama e, ao mesmo tempo, re­pre­sentar a pro­dução dos grandes mes­tres dos pe­ríodos bar­roco, clás­sico e ro­mân­tico", des­taca.
 


As duas ou­tras peças que in­te­graram o re­per­tório do re­cital foram o Con­certo para Ban­dolim e Or­questra de Cordas, de Ra­damés Gnat­tali, a mais fa­mosa cri­ação bra­si­leira para o ins­tru­mento, e uma So­na­tina para ban­dolim e piano es­crita es­pe­ci­al­mente para a oca­sião por Ro­berto Ma­cedo, com­po­sitor e do­cente da EM.

— A So­na­tina foi um pre­sente, disse. Ma­cedo me falou da in­tenção de es­crever a peça, para atender a um pe­dido do di­retor da Es­cola e como forma de in­cen­tivar a es­crita para ban­dolim. Con­ver­samos bas­tante a res­peito du­rante as aulas de con­tra­ponto. Ele pegou muito bem o es­pí­rito e os efeitos que o ins­tru­mento pode pro­por­ci­onar.

A obra foi de­di­cada ao pró­prio Vogel e a seu pro­fessor, Paulo Sá – o pri­meiro do­cente do país a as­sumir uma dis­ci­plina de ban­dolim em nível uni­ver­si­tário.

O con­tato de Kleber com o ins­tru­mento acon­teceu por acaso, quando es­tu­dava em 1979 na Es­cola Villa-Lobos. Quem o apre­sentou foi o ban­do­li­nista Afonso Ma­chado, mú­sico do Galo Preto, fa­moso con­junto de choro. "Fi­quei en­can­tado com a sua so­no­ri­dade, mais acabei se­guindo o curso de vi­o­lino, que já es­tu­dava", lembra.

Vogel se formou pela Es­cola de Mú­sica, em 1989, e fez car­reira como vi­o­li­nista da Or­questra Sinfô­nica Bra­si­leira (OSB) e de vá­rios ou­tras for­ma­ções, in­cluindo grupos de Jazz Rock e Rock Pro­gres­sivo. Con­ti­nuou, porém, a cul­tivar o amor pelo ban­dolim e a tocá-lo ainda que "de forma es­po­rá­dica e nada pro­fis­si­onal", como fez questão de su­bli­nhar.

Em 2010 leu no jornal que a UFRJ es­tava cri­ando a ha­bi­li­tação em ban­dolim. "A chama pelo ins­tru­mento acendeu no­va­mente. Pro­curei o Paulo Sá e pre­parei em tempo re­corde o re­per­tório para o Teste de Ha­bi­li­tação Es­pe­cí­fica (THE)", re­corda.

Kleber passou no THE e con­se­guiu isenção do ves­ti­bular. Ob­teve também a li­be­ração de vá­rias dis­ci­plinas e pode ter­minar o curso em apenas três anos.