domingo, 18 de agosto de 2013

ROSSINI NO MUNICIPAL DO RIO: COM A OSB O&R, É CLARO!




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Escrito por em 18 ago 2013 nas áreas Crítica
 
Ópera “O Turco na Itália” foi apresentada, em forma de concerto, na última sexta-feira.


Il Turco in Italia (O Turco na Itália), ópera-bufa em dois atos de Gioacchino Antonio Rossini, sobre libreto de Felice Romani, com base num libreto homônimo de Caterino Mazzolà, foi levada no Theatro Municipal do Rio de Janeiro no dia 16 de agosto.  Obviamente, a apresentação, em forma de concerto, não se deu pela programação própria do Municipal, um teatro sem qualquer compromisso com a ópera (leia mais sobre essa falta de compromisso clicando aqui) e totalmente descompromissado com Rossini, compositor simplesmente ignorado pela casa.

É evidente, portanto, que tal apresentação só poderia ter sido realizada, como o foi, pela Orquestra Sinfônica Brasileira Ópera e Repertório, em sua Série Ônix.  Foi um bom concerto, mas com ressalvas.  Começando por estas, a primeira coisa que chamou a atenção foi a utilização de um piano, e não de um cravo, para o acompanhamento dos recitativos da ópera, o que demonstrou certa displicência por parte dos responsáveis pela apresentação.  A Fundação OSB não tem um cravo à disposição?  O Municipal não tem um cravo que pudesse ceder à orquestra, já que não o usa para nada mesmo?

Pareceu desleixo, assim como foi preocupante ouvir, já pela segunda vez depois de um concerto da OSB O&R, que o número de ensaios foi insuficiente.  As séries de óperas em forma de concerto do conjunto são as únicas séries líricas realmente sérias apresentas no Rio de Janeiro atualmente, visto que as óperas encenadas esparsamente pelo próprio Municipal compõem uma programação indigna para um teatro de ópera do seu porte.  Até por conta disso, espera-se maior zelo por parte da FOSB para as próximas apresentações, assim como a disponibilização de instrumentos adequados às necessidades da partitura.
Ressalvas registradas, volto a Rossini.  A obra, estreada no Teatro alla Scala em 14 de agosto de 1814 (portanto, há exatos 199 anos) conta a história da visita de um turco, Selim Damelec, à Itália.  Lá, ele encontra Fiorilla, uma jovem e fogosa napolitana, casada com Don Geronio, um homem bem mais velho que ela e que já está em seu segundo casamento.  Fiorilla tem um amante, Don Narciso, que, assim como seu marido, fica enciumado com a aproximação entre a jovem e o turco Selim.  Este está dividido entre Fiorilla e Zaida, que fora sua escrava na Turquia e por quem ainda é apaixonado.  A trama esquenta quando as duas resolvem brigar pelo amor de Selim.  O turco tem a ideia de raptar Fiorilla, já que Geronio não concorda em vendê-la, como é o costume na terra de Selim.  Toda a comédia é circundada e conduzida pelo poeta Prosdocimo, que busca inspiração para escrever uma peça de teatro.  Após as reviravoltas de praxe, tudo se ajeita, a moral é restabelecida e exaltada e todos terminam felizes, com Selim retornando à Turquia com Zaida.

A OSB O&R, desta vez sob a condução do regente israelense Yuval Zorn, teve um bom desempenho geral durante a noite, ainda que metais solistas vacilantes tenham sido notados na abertura da ópera, e apesar de alguns desencontros entre orquestra e solistas – que acabam ocorrendo em música muitas vezes executada em marcha veloz, principalmente quando os ensaios não são suficientes para que se procedam os devidos ajustes.

Um Coro arregimentado para a ocasião, bem preparado por Priscila Bomfim, cantou muito bem.  Foi tocante o trecho em que os marinheiros turcos expressam seu encantamento com o céu da Itália.  Coube a Priscila Bomfim, também, acompanhar os recitativos ao piano.
Dentre os solistas, a mezzosoprano Laura Aimbirê (Zaida) teve uma noite bastante insatisfatória, exibindo uma voz embaçada e de timbre desagradável.  O tenor Jacques Rocha não comprometeu na pequena parte de Albazar, alcançando razoável rendimento em sua ária, Ah, sarebbe troppo dolce.
O barítono Igor Vieira interpretou o poeta Prosdocimo com inteligência.  Muito boa foi sua participação no terceto Un marito scimunito!  Já o tenor Luciano Botelho enfrentou bem as dificuldades da partitura de Don Narciso, o amante da protagonista.  Chamou a atenção sua interpretação da ária Tu seconda il mil disegno.

O barítono Leonardo Páscoa foi um ótimo Don Geronio.  Desde sua cavatina (Vado in traccia d’una zingara), passando pelo terceto mencionado no parágrafo anterior, pelo delicioso dueto com Fiorilla (Per piacere alla signora) e pelo não menos delicioso dueto bufo com Selim (D’un bell’uso di Turchia), com seus característicos ataques de tagarelice, o solista apresentou uma voz potente, bem projetada e ágil, bastante adequada à partitura.  Uma grande pena foi o corte de sua ária bufa do segundo ato, Se ho da dirla, que nem sempre consta de apresentações desta ópera, talvez por ser uma espécie de apêndice inserido por Rossini posteriormente (versão de Roma, 1815).

A soprano lírico coloratura Cláudia Azevedo, que estreou no Theatro Municipal do Rio de Janeiro nesta sexta-feira, demonstrou ser uma exímia rossiniana.  A solista gaúcha, que já trabalhou com Alberto Zedda no Rossini Opera Festival de Pesaro (a cidade natal do mestre), é dona de uma voz graciosa, de belo e claríssimo timbre, e dotada de grande agilidade, pautada em técnica precisa.  Como eu não a conhecia, a soprano foi para mim a grande revelação da noite.  E ela brilhou tanto em sua cavatina (Non si dà follia maggiore), quanto em sua ária do segundo ato (Se il zefiro si posa), nos dois duetos com Selim (Serva… /Servo… e Credete alle femmine) e no dueto já citado com Geronio.  Artista que certamente merece atenção, Claudia Azevedo cantará, ainda este ano, a parte de Musetta na produção de La Bohème no Municipal de São Paulo, em dezembro próximo.

Coube ao baixo-barítono Lício Bruno interpretar o turco do título.  Como Selim, o artista pôde demonstrar toda sua versatilidade vocal e capacidade histriônica.  O mesmo cantor que, há poucas semanas, viveu o drama do deus Wotan na Valquíria de Wagner estava agora às ordens da buffoneria rossiniana.  Com sua voz ao mesmo tempo potente, ágil e bastante expressiva, o solista ofereceu excelente performance em passagens como a pequena cavatina Bella Italia alfin ti miro e nos duetos supracitados com Fiorilla e Geronio.  Uma das características mais amplamente reconhecidas em Lício Bruno é seu talento para a representação cênica.  Mesmo numa apresentação em forma de concerto, com caras e bocas e alguns pequenos gestos, ele consegue dominar o palco e concentrar as atenções.

Numa ópera de Rossini, os números de conjunto sempre têm grande destaque.  E não foi diferente desta vez.  Além dos duetos e do terceto acima mencionados, outros importantes momentos da noite foram o quarteto do primeiro ato Siete turchi, non vi credo (Fiorilla, Selim, Geronio, Narciso), todo o finale deste primeiro ato (participação de todos os solistas mais o coro) e ainda o belíssimo quinteto do segundo ato Oh, guardate che accidente! (Geronio, Narciso, Zaida, Selim, Fiorilla), cantado em parte a cappella e de caráter bem rossiniano.

O próximo e último concerto da Série Ônix nesta temporada trará, em 29 de novembro, a ópera A Carreira do Libertino, de Igor Stravinsky, sob regência de Jamil Maluf e com, dentre outros, Emilio Pons, Elizabeth Caballero e Carolina Faria.  Antes, em 31 de outubro, a OSB O&R apresenta em sua Série Ágata, sob a regência de Abel Rocha, as óperas Trouble in Tahiti, de Bernstein, e O Segredo de Susanna, de Wolf-Ferrari.

sexta-feira, 16 de agosto de 2013




Artur Dapieve
O colunista escreve às sextas-feiras 

A janela de Handel

Na janela, em Londres, entre Handel e Hendrix: vizinhança de gênios musicais 

   

  "Retornei à janela de Handel conforme escutava, entre outras peças, o robusto “Aleluia” proporcionado pelo coro da Associação de Canto Coral, sob regência de Jésus Figueiredo, com músicos da OSB Ópera e Repertório, na missa para Luiz Paulo Horta, quinta-feira retrasada, na Igreja de Santo Inácio. Nunca assisti a missa tão bonita."

Pode-se ir dez vezes a uma grande cidade que ela ainda terá inúmeros ângulos a revelar. Desde 1992 faço visitas regulares a Londres. Sempre descubro novo encanto nas atrações das quais já me sinto íntimo — como os impressionistas na National Gallery — e nunca faltam lugares por conhecer. Este ano, por exemplo, foi a vez de ir pela primeira vez ao museu Casa de Handel, a duas quadras da movimentada Oxford Street.
A bem da verdade, o museu não estava lá nas minhas primeiras viagens. A casa, sim, claro, mas ela foi aberta ao público apenas em 2001. Fica no número 25 da Brook Street, quase na esquina da New Bond Street. Não se engane por esse “nova” aí: a rua está lá desde o começo do século XVIII. Hoje, entra-se no prédio pelos fundos, um larguinho de nome pomposo emparedado por restaurantes chiques, Lancashire Court.

Entre 1968 e 1969, Jimi Hendrix morou no prédio gêmeo ao lado, o de número 23, agora incorporado à Casa de Handel. Isso talvez torne o local a maior concentração de gênio musical por metro quadrado no mundo. O guitarrista americano conserva um cantinho na casa alheia. É pouco mais que uma vitrine, mas não chega a ser injusto: o compositor alemão morou ali durante muito tempo, de 1723 até a sua morte, em 1759.

Georg Friedrich (então) Händel nasceu em Halle, na Saxônia, em 1685. Boa safra para a música: também nasceriam naquele ano Johann Sebastian Bach e Domenico Scarlatti. Handel foi para Hamburgo, em 1703, e para Roma, em 1706. A experiência na Itália foi útil quando chegou pela primeira vez a Londres, em 1710. A ópera italiana era então o que o rock inglês seria nos anos 1960, uma loucura. O alemão era bom e esperto o bastante para produzir — em ambos os sentidos do termo, como compositor e como empresário — dezenas de óperas em italiano. A sua velocidade de criação era incrível. Ajudava o fato de reaproveitar músicas e tomar emprestados trechos de obras alheias.
Quando passou o frenesi pela ópera italiana, cinco anos depois de ele ter se mudado para Brook Street, Handel redirecionou seu enorme talento para a composição de oratórios, ou seja, de adaptações musicais de passagens da Bíblia. Isso implica dizer que ali foi composto o “Messias”, sobre textos em inglês compilados por Charles Jennens. O oratório tornou-se imensamente popular sobretudo graças ao coro “Aleluia”. Segundo a lenda, foi composto em 24 dias de 1741, antes de estrear em Dublin, Irlanda, no ano seguinte. É fascinante pensar nisso percorrendo-se a casa restaurada do modo mais fiel possível aos tempos de Handel, o que inclui uma coleção de obras de arte.

No segundo andar, fica o que se acredita ter sido o quarto do compositor. Ele jamais se casou, e dele não se conhece nenhum envolvimento amoroso, seja com mulheres, seja com homens. No cômodo, há uma cama similar àquela na qual dormiu sozinho. É curiosamente pequena se se tiver na cabeça que era um homem corpulento. Na época, porém, o costume era dormir meio sentado, com o tronco recostado em travesseiros, dizia-se que para melhorar a digestão. Handel morreu em casa, cego pela catarata, aos 74 anos, e foi sepultado na Abadia de Westminster. Gozou de grande prestígio em vida e, a despeito de altos e baixos, a posteridade o reconheceu.

Passei um certo tempo de costas para o aposento, olhando pela janela que se debruça sobre a Brook Street. Fiquei pensando no que alguém na mesma posição teria visto de 1723 — Handel foi o primeiro proprietário — aos dias de hoje. Passou um filminho na minha cabeça, tipo a aceleração do tempo em “Um lugar chamado Notting Hill”: chuva, neve, lama, sol, carruagens, senhoras de vestido rodado, cavalheiros de fraque e cartola, soldados recém-chegados de Waterloo ou de Dunquerque, enfermeiras, tietes de Hendrix usando batas floridas, mods, punks, rastas, sikhs, yuppies, Londres.

Na vida real, a trilha sonora desse filminho variou bastante, como é natural, mas ao fundo sempre se pôde ouvir “aleluia, aleluia, a-leê-lu-iaaá”. A música de Handel é poderosa como esse coro, seja nos concerti grossi, na “Water music” composta para um passeio real pelo Rio Tâmisa ou na ópera “Rinaldo”. Alemão que pegou um bronze na Itália e se tornou o maior compositor na Inglaterra até o nascimento do nativo Elgar, um século depois, Handel ganhou muito dinheiro fornecendo fina arte a um público crescente. Sua música ignora uma oposição incontornável entre “música séria” e “música comercial”. Ademais, continua sendo uma janela panorâmica para nós mesmos.
* * *
Retornei à janela de Handel conforme escutava, entre outras peças, o robusto “Aleluia” proporcionado pelo coro da Associação de Canto Coral, sob regência de Jésus Figueiredo, com músicos da OSB Ópera e Repertório, na missa para Luiz Paulo Horta, quinta-feira retrasada, na Igreja de Santo Inácio. Nunca assisti a missa tão bonita.


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sábado, 3 de agosto de 2013

 

Morre o jornalista e acadêmico Luiz Paulo Horta

  • Colunista do GLOBO faleceu na manhã deste sábado, aos 69 anos, vítima de problemas cardíacos
  • Velório será na tarde de sábado, na sede da Academia Brasileira de Letras

O jornalista e acadêmico Luiz Paulo Horta / Foto: Ana Branco / Agência O Globo 
 
 
RIO - Jornalista, escritor, crítico de música clássica e colunista do GLOBO, ocupante da cadeira 23 da Academia Brasileira de Letras, Luiz Paulo Horta morreu na manhã deste sábado, aos 69 anos, em sua casa, no Rio de Janeiro, em decorrência de problemas cardíacos. Autor de livros sobre música clássica e teologia, Horta acompanhou ativamente a Jornada Mundial da Juventude, publicando colunas diárias sobre a visita do Papa Francisco ao Brasil. O corpo chegou por volta das 14h20m à sede da ABL, onde é velado. Às 8h30m de domingo, Dom Orani, arcebispo do Rio, rezará uma missa de corpo presente também na ABL. O enterro será no mausoléu da instituição, no cemitério São João Batista, às 10h.

Nascido em 14 de agosto de 1943, Luiz Paulo Horta foi eleito para a Academia Brasileira de Letras em agosto de 2008, em substituição a Zélia Gattai. O primeiro imortal a ser diretamente ligado à música ocupou por cinco anos a cadeira de número 23, a mesma de Machado de Assis, que tem como patrono José de Alencar. Estava no GLOBO desde 1990, depois de passar pelas redações do "Jornal do Brasil", onde trabalhou por 26 anos, e "Correio da Manhã". Chegou a cursar Direito, faculdade que abandonou para se dedicar ao jornalismo.

Com apenas cinco anos, Horta ganhou um acordeon e aprendeu a tocar o instrumento sozinho. A aptidão para a música se tornou ainda mais evidente três anos mais tarde, quando seu avô o presenteou com um piano. O profundo conhecimento em música erudita o ajudou a assumir precocemente o posto de editorialista no "Jornal do Brasil", com apenas 33 anos de idade. Seu compositor preferido era o alemão Johann Sebastian Bach.

No fim da década de 1980, Horta fundou e dirigiu a seção de música do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro. Comandou um grupo de estudos bíblicos no Centro Loyola da PUC-Rio, entre 2000 e 2001 e foi membro da Comissão Cultural da Arquidiocese do Rio de Janeiro. Tornou-se membro titular da Academia Brasileira de Música em 1994.
Seu primeiro livro, "Caderno de música", foi publicado em 1983. Desde então, publicou títulos como "Sete noites com os clássicos", "A música das esferas", "Sagrado e profano" e biografias de Villa-Lobos. Sua obra mais recente, "A Bíblia: Um diário de leitura", foi lançada em 2011, resultado de mais de dez anos de pesquisas em um grupo de estudos que mantinha em sua própria casa. Nos últimos meses, Horta estava preparando um novo livro sobre a transição que o Papa Francisco promove na Igreja Católica.
Entre suas condecorações, recebeu o Prêmio Padre Ávila de Ética no Jornalismo, concedido pela PUC-Rio, em 2000. Em 2010, Horta recebeu a Medalha do Inconfidente do Governo de Minas Gerais.
Casado com a editora do Caderno Ela Ana Cristina Reis desde 2007, Horta deixa três filhos, Ana Magdalena, José Maurício (Kiko) e Ana Clara, e seis netos.

 
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